La soledad es la soledad. Todo lo que penso ahora es en la muerte de mis sentidos. Pero la poesia, esta sí, es la única que por todos sus modos persiste sólo en la soledad. Si no me llega un logro, tan pronto estoy perdido; y, entonces, sufro embarazado de transmundanos y pintorescos deseos. Hoy es el día de toda la súper(in)consciencia: dame de tu boca y viva de mis manos. Tu es escritura.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Desejos (ou "Necessariamente em língua poética")
La soledad es la soledad. Todo lo que penso ahora es en la muerte de mis sentidos. Pero la poesia, esta sí, es la única que por todos sus modos persiste sólo en la soledad. Si no me llega un logro, tan pronto estoy perdido; y, entonces, sufro embarazado de transmundanos y pintorescos deseos. Hoy es el día de toda la súper(in)consciencia: dame de tu boca y viva de mis manos. Tu es escritura.
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terça-feira, 12 de abril de 2011
Meth / Emeth
Fome.
Jejum da fome.
Fome da Solidão.
Solidão da solidão.
Jejum da Solidão.
Fome do Jejum.
Solidão.
E assim – como esses versos – vai-se seguindo o decurso. Vão sendo passados pés na frente de pés, e um atrás do outro. "Von Hungertag zu Hungertag"[1], alimenta-se a angústia por uma hora a mais de silêncio. E o sonho, que nunca será, jamais deixará de ser a realidade. Acolham-se os fantasmas; hoje, a noite, como sujeito, é quem se diverte.
[1] Kafka, F. Ein Hungerkünstler. In: Kafka, F. Das Urteil: und andere Erzählungen. Köln: Anaconda, 2008. p. 149. Tradução livre: “De dia-de-fome em dia-de-fome”.
domingo, 10 de abril de 2011
Über Kafka: repressão, direito e burocracia.
Como ele sempre chegara cedo e começava a trabalhar tão logo chegasse, nunca havia observado todo aquele silêncio, não fosse por seus passos, sua respiração e aquela outra funcionária que vivia cantarolando certas coisas sem sentido enquanto o olhava pelo canto dos olhos. Mas quem era aquela funcionária? Na verdade, não importava. Ela, ao contrário, pensava diferente; e tendo visto que B. a observava pulou de sua cadeira com muita diligência e veio arrastando-se até onde ele estava. Disse-lhe, então: "A peça não está pronta."Já eram 12:50.
Passaram-se 15, 30, 45 minutos e ele estava ficando impaciente de contar quantas casas havia à vista pela janela, pois na verdade, como não haviam muitas, ele simplesmente continuava contando as mesmas como se fossem outras. Ele dirige-se àquela funcionária e pergunta se a peça está pronta. Ela, como se nunca tivera com ele falado: "não sei do que se trata." B., perplexo, exclama: "quando eu cheguei não havia ninguém, agora que há, a Sr.ª não quer falar comigo. Pensava que a Sr.ª fosse apenas uma funcionária, mas vejo que é algo a mais. Na verdade, talvez nem seja, mas penso que é e isso me acalma. Pois quando eu nada sabia a Sr.ª provocou-me este assunto da petição e agora já passou-se uma hora e nada da peça." "A questão", pronunciou a funcionária enquanto passava as mãos no peito de B., "é que ainda não foi encontrada a guia do pagamento."
B., então, procurara vários funcionários, todos, de qualquer forma, de menor escalão que ele, mas sem sucesso. Até que, ao voltar à sua sala, já desesperado, embora mantivesse a calma e não soubesse qual o motivo de ter pressa - afinal, estava em um tribunal, pensara - encontrara em cima da mesa a guia paga e a petição pronta e assinada. Abrira a porta e olhara para aquela mulher que chamava-o com os olhos (e aquela boca). Ele fora e ela começara a sussurrar-lhe ao ouvido. Estava então embaixo da mesa; sua pele muito próxima à dela. Enquanto ela torturava-o com aquele deslizar-se, ele pensava em seu trabalho; mas acabou em um ritmo ofegante. Ela então, ainda suada e semi nua mostrara-lhe uma cicatriz no ventre, o que fez B. morrer de ódio e nojo daquele ser que, agora, pensara não saber quem era. Ele levantou-se e saiu daquele lugar, sem dizer uma só palavra.
Perdido, tendo a guia e a petição em suas mãos, saiu de seu andar, tendo subido uma tortuosa escada, cujo fim parecia jamais chegar. Alcançando, porém, o andar pretendido, ele questionara outro funcionário, que por sua estatura e aparência devia ter uma posição muito mais baixa que a sua, não obstante, fosse respeitável, com as seguintes palavras: "onde consigo as cópias, pois já tenho em mãos a guia de pagamento quitada e a petição." O funcionário, andando várias vezes ao seu redor, olha-o cheio de confusão, mas indica exatamente o setor de protocolo e a biblioteca, onde deveria pegar as pretendidas cópias. Já eram 14:02.
Daí, B., seguindo o que lhe dissera aquele vetusto funcionário, chega ao protocolo, mas lembra-se que deve primeiramente ir à biblioteca. às 14:05, chega à biblioteca e pede as cópias. Ao olhar em volta vê várias pessoas, todas com processos abertos nas mesas e canetas nas mãos. Percebe que aqueles deviam fazer o trabalho de copiar os documentos. Entendeu que deveria pagar uma nova guia, e teve a anuência da bibliotecária, pois esta disse-lhe: "toda guia deve ser paga no instante do procedimento da cópia, e, como o Sr. pode ver, a sua já foi paga às 12:40. Além do mais, as cópias já ficaram prontas a muito tempo, o que nos fez jogá-las fora e começar uma nova, tudo pela defesa da sociedade e da burocracia, que nos dá vida - e faz-nos viver por ela."
B. não teve dúvida, saiu da sala às pressas e correu ao banco que ficava no seu andar. Após enfrentar a fila e pagar o novo boleto, retornara à biblioteca às 14:46. Porém desta vez pensou que talvez aquelas cópias ainda não estivessem prontas, o que o forçou a voltar à sua sala. Às 15:01 sobe o lance de escadas e chega àquela sala cheia de escribas, todos tão atarefados que permaneciam sem um movimento, não fossem os seus braços - que funcionavam como máquinas, um escrevendo e outro virando as páginas. Pergunta pelas cópias e a mulher, aquela bibliotecária empoeirada, entrega-lhe, mas sem tirar B. de seus olhos. B. pensa que aquele deve ser um lugar muito perigoso e volta à sua sala.
Quando o relógio mostrava 16:17, sabendo não mais poder evitar e tendo lido mais de uma vez as cópias que pegara, sobe novamente as escadas, com a peça em mãos e segue para a sala do protocolo. Fala a um funcionário, mas este não lhe dá muita atenção, apenas estendendo a mão para pegar a petição, sem tirar os olhos de algum ponto fixo, cujo local exato B. não conseguira identificar. Já carimbada a sua via, segue ao gabinete do Desembargador, onde deveria ver um processo para tirar cópia de uma petição.
Chegando lá, às 17:33, e sentindo um ambiente muito mais sólido e grave do que qualquer outro, fala com um estagiário: "Na verdade, preciso ver o processo para identificar qual é a petição que devo tirar cópia." O funcionário entendera o problema, mas, talvez por má vontade, pois B. não se apresentara, pediu que aguardasse. Após 15 minutos, volta com o processo em mãos, mas antes de entregá-lo chama por sua superior. Imediatamente surge uma mulher enorme, com cabelos penteados e lábios pintados, terno cinza bem tratado e sapatos de bico fino e salto. Ela dirige-se a B. como uma cobra à presa e enroscando-o em suas presas, pergunta: "O que o Sr. deseja e quem é o Sr?" "Eu preciso olhar o processo para identificar o que deve ser copiado, e, quanto a sua segunda pergunta, não vejo importância em respondê-la." "Mas ela é primordial, pois este processo é de extrema importância. De qualquer forma, vamos esquecer deste assunto. Apenas me diga por que o Sr. deseja ver o processo, pois vejo que o Sr. é um alto funcionário, embora não seja o mais alto." B, sem saída, diz não saber, impressionando aquela figura imensa. Mas, ao contrário do que esperado, ela dá-lhe sua permissão.
B. olha várias e várias vezes, mas sempre que pensa ter achado alguma coisa e dirige à Secretária a sua indignação por não entender o que se passa no processo, tem-no retirado de suas mãos e analisado brevemente por aqueles olhos estreitos e calejados pelo tempo. B. não aguenta mais, já eram 18:40 e ele não tivera nenhum resultado. Pensa que já fora suficiente e, de fato, externa sua opinião à Secretária, a qual, cheia de constrangimento na voz, exalta: "Mas não deves esquecer, primeiro o trabalho, sempre o trabalho! Não importa mais nada! Não desobedeça! Por mais difícil que seja seguir toda a sistemática, e sei que não é nada difícil, o Sr. deve continuar até que chegue ao fim, nem que isto leve a sua vida inteira e ainda que nunca consigas viver fora de tudo isto e além disto!" B., consternado, balança a cabeça e segue sua pesquisa.
terça-feira, 5 de abril de 2011
La Cigarette
Deitada no divã, Lourdes vira rapidamente a cabeça para Otto, seu psicanalista. Olha por um tempo apenas para o pé de sua linda poltrona prostrada sobre o estofado azul e volta a olhar para cima... Caiam algumas lágrimas de seus olhos ao passo em que ela refletia sobre a necessidade de ter de falar.
Otto, pacientemente espera passar aquele pequeno momento de euforia e perplexidade apenas acendendo uma cigarrette - até porque, sendo muito sincero consigo, de que importava falar alguma coisa para aquela tola? Assim, passaram-se 15 minutos e o olhar de Lourdes ainda estava no teto, na verdade ela contava todas as aranhas naquele lugar frio e úmido.
Otto então levanta-se de sua linda cadeira, em madeira escura como nenhuma outra, e dirige-se ao outro divã. Neste momento, Lourdes encontrava-se estirada, tal qual uma flecha, mas de repente já não mais assim estava. Otto sentou-se ao longo daquele confortável móvel, limpou a poeira com as mãos várias e várias vezes, até sua pele ficar vermelha e irritadiça. Deitou-se, então.
Lourdes colocou os óculos, sentou-se na cadeira - e aí já não mais carregava as lágrimas, mas um certo tom de perversidade... lembrara-se de Wolfgang, seu companheiro. Olhou aquele sujeito infeliz, infantilmente começando um movimento côncavo até atingir a posição fetal. Neste momento, o fumo de Otto já tinha chegado na piteira e seus olhos estavam fechados, ao passo que seu rosto estava lívido.
Lourdes, estirando o braço e apontando com o dedo, proclama em tom profético, majestoso: bem aventurados aqueles que amam na cama, pois um dia será deles um filho e rei dos céus; bem aventurados aqueles que olvidam, pois suas culpas passearam junto ao reino dos mortos; bem aventurados aqueles que se entregam, pois, antes de ser só, serão com alguém no reino da carne.
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domingo, 3 de abril de 2011
Sentimentos: uma visão heraclitiana
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Personagens do monólogo
Marcos
Le Coeur
Angústia
Cena: de frente para um espelho. Marcos terminara de assistir um filme cujo ator principal é Ricardo Darín. Há duas sombras sob a luz, uma é o Coeur e a outra a Angústia.
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Marcos olhando-se começa a falar:
Não faço idéia do que houve. Em algum momento deixei de ser gente. Já não é fácil sucederem-me sentimentos - e de quaisquer espécies -, pois parece que ante um nevoeiro me encontro e não vejo mais que minhas mãos. O mais estranho de toda esta relação é a quantidade de vezes que me coloco a repetir du coeur; muito embora, à medida em que as palavras retraídas dos sentimentos voam na forma de pensamentos, mais distantes do meu eu ficam suas substâncias; Do próprio coração...
É muito fácil mostrá-las, falá-las, representá-las - mas é claro! representá-las, de fato! Isto não passa de um teatro e eu sou o maior de todos os palhaços. Me escondo atrás de minhas performances e esqueço de meus sentimentos. Mesmo a angústia, como grande companheira, me dá esse traje escuro, que eu faço questão de disfarçar em vermelho. Se me pego a sentir, e me vem alguma vontade incontrolável de chorar, tento aumentá-la; mas como os contrários são a norma do consciente, vejo-me a racionalizar o que me sucede e permaneço frio por dentro, conquanto vermelho por fora.
A todos os momentos imagino um amor perfeito, sem perceber - apenas nesse pequeno momento da imaginação? - que já o tenho. Mas como já não o sinto, esqueço de notá-lo e continuo o meu caminho tendendo a mudar tudo o que me vem. Os asnos preferem a palha ao ouro, disse o filósofo; eu prefiro me esconder e ser asno a ser, realmente, o próprio asno, ou mesmo ser gente, como bem deveria. Na verdade, o grande prêmio me espera no dia do meu confrontamento, pois até lá, o império do não-eu sobre o talvez-seja irá privar-me do coeur, deixando-me ou apenas a palavra ou o espectro de tudo o que, para me apaziguar, me angustia.
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terça-feira, 29 de março de 2011
A Poltrona
Em uma sala há muito olvidada, repleta de odores e cores desbotadas, rachaduras úmidas e objetos sem memórias, relegados ao jugo das intempéries; havia uma criatura prostrada numa poltrona multicor
De tudo a se ver na sala, a criatura era sem dúvida; o aspecto mais abatido e desprezível.
O encosto da cadeira causava chagas por todo seu dorso. Enquanto isso, o painel de vidro obscurecido de seu paranoico relógio não o permitia certeza da posição dos ponteiros.
Dele emanava o rítmico lembrete, que impunha um desafio às suas dores e a sua paciência.
A fuligem ou os fungos o impediam de determinar o momento do dia. A sala era tão fétida e obscura, as janelas vedadas por desconfiança das crianças irritantes das redondezas. Talvez a incerteza ao fitar o relógio, fosse só de seus velhos olhos, quiçá fosse efeito do álcool misturado com sua excessiva medicação.
A hipocondria era comum à sua idade, mas o ócio o envelhecera muito antes de seu tempo -
O menor incômodo o levava a imaginar as mais pavorosas condições médicas possíveis.
Segundo seus cálculos, e pelo silêncio mórbido circundante, deveriam ser umas três da manhã.
A fadiga já lhe alcançara há muito e prestava testemunho à mesma conclusão.
Se realmente fossemos o julgar imparcialmente : É impossível recordar-se de uma era quando fora minimamente energético ou industrioso.
-Moveu-se! Como num último ato de coragem de um animal que tenta fugir das garras de seu algoz! Porém não fora exatamente um movimento voluntário, mas sim de amargura.
O estofado da poltrona cedera mais um pouco, e outra mola enrustida o lembrara de suas feridas.
A agonia era como uma picada de escorpião. Espalhava-se pelo corpo, e a contorção o causara ainda mais sofrimento.
Moveu-se para acomodar-se, para evitar aquele foco de dor e esperar o próximo.
Então cedeu as divagações. Pensamentos cinzentos subjugaram-no. A dor abrira os pórticos das incertezas, e agora sua alma ardia ( isto é, se um ser como ele tiver uma). De sua essência restava a fuligem do que fora até então sua existência.
Mentiria se o chamasse de homem. Não era um homem, jamais fora.
- Era a Hidra de Lerna em um antropomórfico invólucro. Durante seus dias tivera diversas faces, que iam sendo ceifadas, dando lugar para diversos outros enigmas. Não era um homem, fora todos os homens, fora tudo aquilo que era vil, e para cada situação que o universo o arremessara, mostrava um semblante diferente. Desde o mais belo e inocente, ao mais pútrido e ácido.
Não ousaria acusá-lo de falsidade; pois, a todo instante tivera sido totalmente congruente com a máscara que trajara.
A sua presente forma física dificultava sua respiração, que era ofegante e ruidosa. Sabia muito bem do fim de seu percurso, mas não havia mais remissão...
Indagava-se – Como teria chegado a este ponto? Onde repousa a beleza de outrora, dos dias de Sol? O movimento em sua vida, porque cedeu a inércia? Houvera ao menos resistido ?
segunda-feira, 21 de março de 2011
Uma questão de espírito
Pela janela dava para ver que o mundo lá fora estava muito agitado. Já do lado de dentro, Amanda estava sentada em sua cadeira, tipicamente abaixo do ventilador e perto do canto mais afastado da porta. Era uma aula sobre política, porém ela não estava muito interessada em nada daquilo. Pelo contrário, o que mais a interessava era justamente uma coisa que o professor, um senhor já com seus sessenta anos e uma pança condizente ao seu estatuto - de senhor, professor e político de carreira -, jamais poderia dizer-lhe.
Ela via enquanto as pessoas andavam sufocadas entre o branco do concreto e o cinza das nuvens de uma cidade de respeito, como era a dela, e esqueciam como o céu era azul. Mas Amanda pensava mais além. Em seus devaneios, ela notou que todos seguiam um modelo meio que predefinido; uma espécie de padrão. Sempre olhavam o relógio, com a mesma pressa e a mesma urgência. Isso a fez lembrar de um livro do qual gostava muito de ler durante a infância: Alice no País das Maravilhas. Como todas aquelas pequeninas pessoas através da janela lembravam o Coelho Branco, pois não importava a situação, sempre pareciam atrasados.
Os poucos que passavam sem rugas e pés-de-galinha no rosto eram logo repreendidos por olhares; olhares de trabalhadores, gente esforçada e malograda por terem de presenciar tamanha obscenidade. Afinal, onde não se tem espírito, só se pretende o fim. Pois bem, Amanda, então, parou e escutou um pouco do que dizia aquele velho demagogo cuja situação obrigava-a a chamá-lo professor. Não que ela tivesse prestado atenção, foram apenas algumas frases soltas: "o mundo gira com o dinheiro" e "o progresso é amigo da ordem e do desenvolvimento, vindo sempre para o melhor".
Ela voltou a encarar a janela, agora, pela luz que entrava, dava para ver um pedaço do seu rosto refletido. Ela virou-se para a sala novamente, quase devagar, e notou os colegas. Todos com o mesmo padrão: caras de tédio e ansiosamente olhando para seus relógios e sapatos e, também, uns para os outros como que perguntando, "mas o que diabos a gente tá fazendo aqui?" "pois é", pensou Amanda, "o que é que eu tou fazendo aqui?!" e, tendo falado a última palavra em voz alta, sem perceber, chamou a atenção do professor.
"Querida", disse ele, "o que você acha da democracia de hoje em dia?" Ela parou, coçou sua perna esquerda com a mão direita, levantou os olhos, mexeu levemente o nariz, e disse: "Professor, o que você entende por democracia?" O professor não entendeu de imediato, já tão acostumado a sempre ouvir e falar as mesmas coisas e a sempre que pronunciar algo ter a ovação como resposta. Ela, então, voltou-se novamente e continuou, dessa vez olhando para o chão: "eu não acredito que em nossos tempos seja possível falar em democracia... Ela já deixou de ser um problema para todos os dias e nós nos acostumamos a isso".
Para o sósia de Sancho Panza aquilo já era demais! Primeiro aquela menina vulgar ficava olhando em volta, sem interesse. Depois, falava sozinha palavras que nada traziam de cortesia. E, por último, tinha a petulância de desvirtuar uma pergunta sua, fazer outra pergunta, cheia de ironia, e responder-lhe um tamanho desaforo, principalmente devido a sua profissão. As providências tinham de ser tomadas, afinal, a verdade é uma só! Nós temos, é claro, uma democracia! Se não fosse por isso como é que ela ainda estaria nesta sala? O professor olhou para Amanda e, com ímpeto, "mocinha, sua prova, agora, valerá dois pontos a menos! Não volte a polemizar, não é para isto que estamos aqui... Isto é uma democracia, primeiro o interesse dos mais numerosos!"
Amanda não se conteve; ela sabia que era uma questão de tudo ou nada! levantou-se e tinha o rosto vermelho. Nesse momento a luz entrava pela janela e iluminava toda a metade esquerda de sua face, fazendo com que sua pele ficasse de um alaranjado de um lado e vermelho-tomate do outro. Assim, "Professor, me desculpe, mas a paz é o pior dos males! Se por um lado cessa as angústias dos conformistas, pressupõe, prediz e antecede à guerra... Além do mais, por acostumar as pessoas à calma e ao sossego, aliena-as e as faz pensar que está tudo bem. Só quero dizer", e o fez já retirando-se da sala, "que sinto falta de um propósito a lutar, de uma camisa a vestir - e sem ter de recorrer aos velhos espíritos de antes! Quero um motivo pra viver! Isto aqui já está falido desde que começou."
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sábado, 19 de março de 2011
Por mais um...
Marcos acordou cedo. Acordou, coçou seus olhos, pensou no que tinha sonhado e bateu a cabeça no travesseiro. Mas que saco, não é? Ter que acordar assim tão repentinamente para poder tomar banho e seguir a rotina que vincula a pessoa ao tempo e não, justamente, o contrário.
Sim, quase esquecia, eu estava falando de Marcos, não era? Sim! Era isso... Prossigamos: Marcos acordou bem cedo, porque tinha que ir trabalhar. Para isso ele coçou seus olhos, com certa preguiça, e depois de ter batido sua cabeça no travesseiro ao menos uma ou duas vezes, levantou-se, olhou seus animais em volta, fazendo um círculo entre boca e cauda, mas percebeu que estava sonhando de novo.
Dessa vez ele acordou, viu que já tinha perdido mais dez minutos desde a hora em que o despertador tocou e voltou a pensar em seus sonhos. Dessa vez havia sonhado com Zaratustra. Já nem mais lembrava do primeiro sonho... Que coisa, não? como a memória falha; mesmo aos mais sãos. Pois bem, no caminho entre sua cama e o banheiro pensou em várias coisas, dentre elas "que coisa extraordinária é o ocaso, não é?. Como posso eu pensar que ainda sou vivo se não elevo tudo à potência do infinito?"
Mas chegou ao banheiro. Notara, então, que havia deixado a luz ligada durante toda a noite. Apagou-a, mas percebeu que ainda estava muito escuro para poder continuar desse jeito. Ligou-a novamente para fugir à sua zona de conforto e disse baixinho: "como a natureza me angustia... parece que estou sempre sendo seguido por ela... Quando será que poderei controlá-la?!"
Contou todas as vezes em que tomando banho esta manhã deixara cair seu sabonete. As vezes, percebera, deixava que caísse propositalmente, como deixa-se o sol cair pelas mãos de Aurora. Ao pensar em Hélio, Aurora e Apolo, lembrara-se da última vez em que estivera sentado a observar um pôr-do-sol... Quanto tempo não fazia. Isso assustava-o. Pensara e queria continuar pensando que ainda era vivo, mas seus pensamentos o conduziram ao seu ocaso, e este, como o pôr-se da luz em seu banheiro aguçou-o de sua angústia.
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Uma receita : por Ozymandias
Cena : César e Xenofonte se encontram num bar, no Limbo Dantesco -
César - Ilustríssimo camarada, sou muito grato pelas preciosas dicas de marketing e publicidade! A propaganda deu certo!
Xenofonte - Ah meu caro, eu havia dito que funcionaria, você por acaso seguiu todas as diretrizes daquele meu livro de autoajuda?
César - Da Anabasis?¹ Sim, e como! Segui bem aquele modelo prescrito! Me veio o tolinho do Octaviano me perguntar:
"Titio Gaius, como você correra em auxílio da Décima Legião Equestre! Que Coragem ao portar a Gladius frente às linhas! Você não temeu aqueles belgas peludos?"
Xenofonte - Ele realmente acreditou que você estava naquele Alarum todo?
César - Ah, pobre puer aeternus... Ele crê até que a solução para a glória Romana é monogamia e a santidade do matrimônio... É cada uma! Jura que um dia vai me convencer a forçar o senatus populesque a se pronunciar sobre isso. Cícero que se diverte com esses devaneios do garoto.
Xenofonte - Ele deveria primeiro ensaiar no Odeon de Péricles! Um cômico nato!
César - Já que você tocou no assunto... O esquentado do Sula acabou incinerando o teatro... ²
Xenofonte - Nem vem, que eu ouvi falar que você fez o mesmo com a biblioteca na cidade de Ptolomeu. Para se livrar dos registros fiscais das remessas de trigo!
César - Eu juro que foi um acidente! Houve uma revolta. Foi uma confusão tão grande. Fugiu ao meu controle!
Xenofonte - É, se ao menos você fosse um líder abençoado pelos Deuses, como eu frente à minha miríade! Ah aquele retorno da Ásia !
César - Certamente! O que teria sido da expedição sem sua liderança nata? Quantas vezes você não averteu o desastre com um vigoroso discurso?
Xenofonte - Você também honrado colega, quantas mães romanas não agradeceram pela sua obra na pacificação da República? Ah, Bella detesta matribus!
César - Mas enquanto o vinho não chega, topas uma partida amigável?
Xenofonte - Claro, valendo o quê?
César - A estima da posteridade - anerriphtho kubos! ³
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1 Ἀνάβασις (Anabasis) - A Obra mais famosa de Xenofonte, narrando o retorno da expedição mercenária Grega contratada por Ciro da Pérsia, para usurpar o trono de seu irmão Artaxexes II. Inspirou a invasão do Império Persa por Alexandre
2 Lucius Cornelius Sulla -General e estadista romano , destruiu o Odeon de Athenas durante a revolta de Mitridades em 87 a.c. Bem como foi o primeiro ditador a marchar contra a cidade de Roma, exemplo seguido posteriormente por Caesar
3 Plutarco - Vida de César, capítulo 32. anerriphtho kubos - (Lancem os dados). Frase pronunciada por César ao cruzar o Rubicão em 49 a.c. , iniciando a guerra civil contra Pompeu.
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1 Ἀνάβασις (Anabasis) - A Obra mais famosa de Xenofonte, narrando o retorno da expedição mercenária Grega contratada por Ciro da Pérsia, para usurpar o trono de seu irmão Artaxexes II. Inspirou a invasão do Império Persa por Alexandre
2 Lucius Cornelius Sulla -General e estadista romano , destruiu o Odeon de Athenas durante a revolta de Mitridades em 87 a.c. Bem como foi o primeiro ditador a marchar contra a cidade de Roma, exemplo seguido posteriormente por Caesar
3 Plutarco - Vida de César, capítulo 32. anerriphtho kubos - (Lancem os dados). Frase pronunciada por César ao cruzar o Rubicão em 49 a.c. , iniciando a guerra civil contra Pompeu.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Um dia na areia
Lembra-se daquele dia de sol? Pois é, o dia estava lindo e era nosso reencontro. Nós andávamos e andávamos enquanto nossos pés iam afundando na areia. Carregávamos nossas sandálias nas mãos e no rosto um belo sorriso. O vento ia fazendo-nos dançar e andar e olhar e sorrir e... Nós estávamos ali. Finalmente, ali. O som do vento. O som dos nossos passos. Os passos na areia. A areia em nossos pés. Os pés que aos poucos apagavam-se de nossas memórias. Os restos das memórias que iam ficando. Quanto elas nos custam, não é verdade? Isso é só entre mim; você e eu, na verdade.
Nós ríamos bastante, lembra? E aquele dia na areia? Ah! Como o mar estava lindo... E era um dia de sol. Nós olhávamos em volta enquanto as luzes iam refletindo(-nos) na água. Éramos eternamente cúmplices um do outro: sempre com belos sorrisos. As ondas iam-nos afastando e nós ansiávamos para que nossas pernas se chocassem, se tocassem, se enroscassem. O som do seus cabelos ao vento; como me faz falta... era uma graça só... Eu vejo os nossos olhos uns nos outros. Passos entre as memórias. Memórias de um dia feliz, do qual me escapam esse pés afundados na areia. Enfim, pessoas que não somos mais, foram-se com a água e, se de alguma forma voltaram, só com Zéfiro.
E na rede?! O céu estava lindo e a lua estava cheia. Nós lembrávamos momentos enquanto nossos lábios iam se afundando; o cheiro era doce e os seus cabelos moviam-se. Os corpos iam batendo e nossos pés esfregavam-se entre os lençóis. O som do ato. O ato na cama. A cama e nosso peso. O peso de nossa culpa. A culpa que nos levou a este momento. O momento do qual vamos sempre lembrar. A lembrança, que por conta da culpa e da vergonha, vamos apagar, assim como aqueles passos...
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