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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Canção de bosque

BEKSINSKI, Zdzislaw. AA78, 1978.

É um vazio existencial tremendo. E como me dá fome estar nele jogado, arrastado por um retorno à pátria-mãe. Longe do solo da infância é que se pode ser si mesmo e viver como si-mesmo e sonhar e comer. É um vazio tremendo e imenso e dá sono e tira a fome e angustia. Lacero-me o braço e as pernas ao coçar e arranhar; impelido por um desconforto indeterminado e imensurável, lacero-me até mesmo o lacerar. Como dói o voltar do mesmo... Como entristece pensar que tem de ser como o é, para que de fato seja. É uma existência tremenda e como o seu vazio, no seio da pátria-mãe dá fome! Que venha o bosque.

domingo, 5 de outubro de 2014

Γλαῦκος, o imortal

WATERHOUSE, John William. Circe Invidiosa, 1892.


Ficamos velhos, se antes não morrermos,
irremediavelmente.
Nada Valemos? Que com isso ganhamos?
Alguma coisa decerto.

Um quê menos estúpido do que
na vida esperanças depositar:
Tudo o mais! Os previdentes
Nos respondem: tudo o mais o é.
Antes esperar, como o fazem
Apenas poucos, não naturalmente!

Certo é padecermos de males tantos,
Indefinitivamente.
Com o tear da vida despercebidos:
Destino amalgamado.

E quanto vale um tecido já
Rasgado, perceberemos, contudo -
Já aos passos apressados, rumo
Ao melhor; inconteste, fugidio.
Mas manter-se-ão ocupados os
Braços relegados e esquecidos.

E para quem a vida oprimida resta,
O mostrar-se delirante.
Diante dos fios - aceitação difícil:
Ser unido ao divino.

domingo, 14 de setembro de 2014

Θάνατος

KLEVER, julius von. Der Erlkönig, 1887.


Porque é a morte quem sempre vem. É a morte quem [sempre] devora; e, através do sótão da nadidade, nos lança (a todos) no esquecimento. A morte não é um lugar, mas a carência de um: Θάνατος.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O esvair-se do claro

BEKSIŃSKI, Zdzisław, 1983.
[sugere-se seja lido em conjunto com "Deshominisation" de Alain Goraguer.]


[Prelúdio]

Oh! Estes pensamentos das horas escuras... Conheço-os bem; malogro quando não... Findo o vespertino que, diante das portas da noite, jamais!

[Primeiro ato - um cravo e uma flauta doce]

Ao fundo uma flauta entorta o ar e me lança em prazer... Ou não seria isso complacência? O cravo marca o meu badalar e lanço-me outra vez em horas escuras; eu, este; eu o balouço de meu eu, isto. Pensando sobre mim como algo distante. Lançado, sem mais, com(o) a profundidade de um lago gelado, longe e coberto por montanhas, em todas as minhas (tão minhas!) horas escuras!

/hic clausula est/

domingo, 16 de dezembro de 2012

Die Eule: Athene, Sinn und Unvernunft


Die dritte Tochter, die von Vögeln geboren würde, ist nur die elfte Tocher und nichts mehr besonders. Das ist nur eine Reflektion, die sinnlos und idiotisch ist, obwohl es sehr wichtig für allen sein muss, denn ohne dieses Lied muss man total traurig sein. Also ist das die Worter, die ich dir sagen möchte.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Genau: Hermes ao ouvido



Boatos andam soltos... Eles falam direto o que não tenho coragem de ouvir. Contam-me todo o tempo, antes de dormir, as mais pavorosas mentiras - quando não veem de mim. Mas se são boatos que me recuso a escutar, por serem meus - ainda que apenas na ideia -, então são verdadeiros e fatais. Boatos andam soltos... Revelam-me que não são tão fortes as convicções que me fiz ter. Relatam os meus sentimentos como uma paródia e me expõem ao ridículo. Estes boatos não são meus; eles são "eu mesmo", depois de uma noite gostosa, quando o travesseiro martela minha cabeça - fazendo-a pesar e não dormir. Boatos andam soltos em mim - e me circulam.

domingo, 7 de outubro de 2012

Rubro (ou lá no canto)


Ali, ali no canto. Bem no canto do meu jardim. Tem um pequeno homem vermelho tentando destruir o pedaço que ainda resta de minha bola preta. Estou no canto do meu olho. Estou dentro de minha sala. Olho para fora e só vejo o homenzinho. Mas ele é tão gracioso. E destrói toda a minha bola. Era de terra, entretanto. Mas minha. Não é mais. É só mais um resto de terra na boca do homem, do pequeno homem vermelho. Beijos!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Eu... dão-me vanidade!



Dei-me, dão-me vanidade. Eu dão-me vanidade; eles dei-me vanidade. O expressionismo um dia notou, a flor da menina é a curiosidade do Golem; e Nosferatu viu que a luz é o bem de sua poeira. Eu dei-me vanidade... Eu, dão-me vanidade a mim. Felix disse à sua bolsa, amarela e preta, preta e amarela: "dê-me o que preciso!" "careço vanidade", pensou o gatinho preto... O bem da bolsa era tornar-se vazia. O pó dos móveis cobre tudo o mais, e deixa tudo o mais perplexo diante da limpeza que chega – avassaladora, rápida –, mas, logo a partícula retorna (e, se não for a mesma, outra). Por isso que um quarto branco compõe melhor com o mundo, principalmente um quarto sem móveis e, preferencialmente, sem luz (mas, sendo assim, já que não tem lume, não poderia ser de qualquer outra cor? Não, pois um dia poderá bater o sol...), para que possa restar a limpeza de uma aparência: vão no vão. Vanidade sem limites, neste quartinho... Sou eu o único móvel, o único a contemplar. A vida em contemplação: dei-me vanidade.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Casa de Espelhos



Na casa de espelhos falou-se da ocorrência de algo.
Um disse que houve, outro que nada passara : Aquele disse que vivera, outro que morrera e alguém matara.

Um ouviu falar
Aquele soube que falaram
Um sabe o que houve
Alguém tinha certeza
Outro presenciou
Alguns acreditaram.
Aquele perdeu
Um manipulou
Alguém lucrou.

Houve protestos - As versões entraram num mesmo balde, as tintas se misturaram,e escorreram contos difusos em degradé.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Big Brother is watching you!


Era um São João, e já faz um ano. Foi exatamente em um desses dias do ano passado em que a memória nos permite recordar o que construimos internamente em nossa vontade. Lá os apartamentos eram dispostos em linhas e linhas em degradê e cada espaço em branco era uma rua ou pista para pedestres.

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Pois bem, as pessoas festejavam em rajadas de explosões - fortes e fracas - sua felicidade pelo feriado e a beberrice que sempre o acompanha. Não interessam mais as canjicas, as danças e o milho assado, só as bombinhas que explodirão goela adentro num sapo ou farão vários idosos destemidos sentirem-se um pouco ultrapassados ou ainda um pouco de fadiga e dores no braço esquerdo acompanhadas de náusea e suor frio.

João, o meu personagem fictício para mim mesmo, estava na sala, sentado em seu sofá, como um bom e comportado pós-moderno, aproveitando o seu surfe diário entre os canais típicos da massa controlada chamada Brasil. Do lado de fora, entre os vários pows e bangs normalíssimos a esta altura do ano, alguns sons o incomodavam mais do que outros, e incomodavam tanto mais ao seu pai.

Como a questão é de resolver se reclamar ou não e sabemos que nos lugares movimentados de hoje não existe nada do que se conheceu por bons modos, mas apenas um bastante suculento pedaço de ultraviolence meu querido droog, contemo-nos enquanto pudemos. Quando não mais possível, abriu-se a torneira, fomos aos pequenos cães que rosnavam defronte de casa e dissemos: "garotos, não soltem as bombas aqui, está muito perto da casa e está encomodando".

Claro, foi preciso repetir pelo menos mais umas três vezes - sempre com mais intensidade - até que ouviram nossa simples querela. Na verdade, cumpriram, mas não satisfeitos, pois correram a reclamar dos berros aos pais e estes eram quase que pratos de percussão: Muito barulho, nada de calma. Resolvemos, contudo, quase como seres de outrora, antes mesmo dos homens.

Pais que não são pais, são ursos, este é o futuro do país. Ursos não servem como pais, não para gente, mas para criação contínua e recomendada pela emissora do Plim-Plim de jovens loucos e controlados quer pela mídia quer pelo governo quer pelo saco. Fodam-se os países do Big Brother!

domingo, 12 de junho de 2011

Usurpação: sobre o dia dos namorados


Um poder se apossou de mim. Cruzou minhas fronteiras para fora e para dentro. Belo, belo movimento. Eis sua história.

- Sr. A, gostaria de perguntar-lhe, seria possível tomar sua dama para uma dança?
- De fato, só não vá fazer com ela nesse tempo que lhe concedo, Sr. B, o que eu nunca fiz em longos dez anos.
- Se o Sr. me permite, o que poderia ser tal coisa?
- Oh... penso não poder falar diretamente, mas, como tenho percebido que nossa intimidade cresce e, com ela, nosso respeito mútuo, não creio que faça mal contar-lhe, muito embora possa ferir minha honra...
- Mas o que poderia ser tão grave?
- Ventura, Sr.; desventura e amor. Amor, na verdade. Somente. Ventura é o que não tive por nunca ter-lhe amado, embora ela seja linda.
- Deixo claro, e com isto já vou seguindo meu caminho, não sou capaz de fazer-lhe tal afronta... [virou a cabeça] Continuo com minha antiga pretensão, se o Sr. não se importa, claro...
- Que bom, Sr., quão imensamente bom isto é, e o Sr.!

O Sr. B saiu e tomou de súbito a mão macia da dama. Já a dançar, lança um olhar descrédulo ao Sr. A, um pouco reconfortante, talvez, mas com um significado muito mais profundo do que qualquer outro. Coloca as mãos ao redor da moça, com certa fineza, mas sem qualquer frieza. Lança-lhe um olhar [e neste momento estavam escondidos pelos corpos de mais tantos casais que dançavam naquela noite] e leva sua boca às proximidades de seu rosto, dizendo-lhe em sussurro: "Minha dama, dama só minha e nunca de outrem, percebo que sua beleza é mil, mas percebo que seu calor a supera; sei também que sua face embora bela é tocada com melancolia e malgrado. Não se aflija, porém, [calou-lhe palavras tortas com o dedo] a Sr.ª terá o que jamais lhe foi permitido..." Silêncio, enfim. Puis un Couple.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Meth / Emeth


Fome.
Jejum da fome.
Fome da Solidão.
Solidão da solidão.
Jejum da Solidão.
Fome do Jejum.
Solidão.

E assim – como esses versos – vai-se seguindo o decurso. Vão sendo passados pés na frente de pés, e um atrás do outro. "Von Hungertag zu Hungertag"[1], alimenta-se a angústia por uma hora a mais de silêncio. E o sonho, que nunca será, jamais deixará de ser a realidade. Acolham-se os fantasmas; hoje, a noite, como sujeito, é quem se diverte.


[1] Kafka, F. Ein Hungerkünstler. In: Kafka, F. Das Urteil: und andere Erzählungen. Köln: Anaconda, 2008. p. 149. Tradução livre: “De dia-de-fome em dia-de-fome”.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pombos


O encantamento pelas palavras é o motor da obscuridade. É a causa da hierarquia e a desventura do ignorante. Acham-se lindos (seriam pombos: inflados e deformados?) estes tão obstinados ao conhecimento; são exímios Narcisos. Vangloriam-se do não o entenderem. Constroem os primeiros degraus e riem de como as formiguinhas necessitam da escada inteira. Viva! Viva!! Palmas para aquele que olha de cima! Um dia, tal qual seu maior servo, será parte do solo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cansar


(1) Pensar cansa, (2) e eu já cansei de pensar quanto cansa o pensar.

(3) Amar cansa, (4) E eu já não cansei de repetir o amar.

(5) Passa vento, passa-tempo, (6) cansam-se os nódulos de um coqueiro.