Mostrando postagens com marcador Caio Scheidegger. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caio Scheidegger. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de dezembro de 2011

Uma noção de Governança

Na verdade isto é mais uma tradução que qualquer coisa.
Me interessei por este tablete fenício do Museu do Pergamon , em Berlim.
Testamento de Kilamuwa, Rei Fenício, cerca de 825 A.C.




"Eu sou Kilamuwa, Filho de Hayya, Gabbar reinou sobre Y'DY e nada fez; depois dele veio Bamah, que do mesmo modo, nada fez. Então reinou meu próprio pai Hayya, mas ele também foi inábil. Em seu turno, reinou meu irmão Soil, que também em nada agiu. Entretanto, eu, Kilamuwa, Prole de Tamel, o que fiz, jamais fora feito pelos meus antepassados.

A casa do meu pai estava cercada de reis poderosos, e cada um deles estendeu as suas mãos  para guerrear. Eu estive nas mãos dos reis como um fogo, queimei as suas barbas , e como um fogo, devorei as suas mãos. O Rei dos Danaos fora sobrepujante, mas contra ele me utilizei da ajuda do Rei da Assíria:

Naquela época uma jovem mulher era oferecida no mercado pelo preço de uma ovelha, um homem, pelo preço de uma vestimenta.

Eu Kilamuwa, filho de Hayya, sento no trono do meu pai. Sob os reis que me antecederam, foram os Muscabinos tratados como cães, mas para eles fui um pai, uma mãe e um irmão.

Aquele que jamais sequer vira uma ovelha, o fiz senhor de um rebanho. Para quem nunca outrora vira um touro, o fiz senhor de uma junta. Dei riquezas para quem nunca possuira prata ou ouro.  Para aqueles que desde a infância não trajaram linho, eu os vesti em meus próprios tecidos de Byssus dos pés à cabeça.

Eu peguei o povo pela mão, e do fundo de suas almas, me fitaram como filhos à uma mãe.

Qualquer um dos meus filhos que venha a me suceder, e que por ventura destrua essa inscrição, que ele seja desonrado entre o povo. E se suceder de alguém causar dano às minhas letras, que o Deus de Gabbar, Ba'al-Samad esmague o seu crânio, E que o Deus de Bamah, Ba'al Hammon, destrua a sua cabeça."


Berlin, Pergamonmuseum, Stele des Königs Kilamuwa aus der Burg von Samal, Zincirli, Türkei (Stele of King Kilamuwa from the castle of Samal, Zincirli, Turkey)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Casa de Espelhos



Na casa de espelhos falou-se da ocorrência de algo.
Um disse que houve, outro que nada passara : Aquele disse que vivera, outro que morrera e alguém matara.

Um ouviu falar
Aquele soube que falaram
Um sabe o que houve
Alguém tinha certeza
Outro presenciou
Alguns acreditaram.
Aquele perdeu
Um manipulou
Alguém lucrou.

Houve protestos - As versões entraram num mesmo balde, as tintas se misturaram,e escorreram contos difusos em degradé.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Jabberwocky



 Para o positivismo, o uso dos símbolos numa situação real é que confere significado a uma norma, pois a maioria da letra do legislador é geralmente aberta a interpretação, não existindo assim uma fórmula interpretativa intrínseca ao próprio texto normativo.
Após a criação da sua teoria pura do Direito, Kelsen foi desafiado a criar uma teoria para a interpretação, que até hoje é um dos pontos mais complexos da teoria positivista Kelseniana. Como justificar um método de interpretação? Visto que para Kelsen, em sua primeira edição, o Direito era aquilo que estava positivado, e a norma poderia e deveria ser isenta de valorações zetéticas, como tanto é repetido nas aulas de introdução ao Direito, ele postulava que a norma jurídica tiraria seu poder vinculante da autoridade legislativa e aplicadora do Direito, e não de pressupostos naturalistas como até então era disseminado.
Muitos dos que analisaram a Teoria Pura do Direito, colocam um enfoque escapista nos métodos de interpretação propostos pelo austríaco. Talvez tenha sido mesmo escapista, mas venho a crer que não era somente uma escapatória, mas sim uma parte inalienável do sistema proposto por ele, e a única solução passível de concordância com o resto da Teoria Pura, dado que qualquer análise, mesmo que vaga possa constatar que talvez a teoria da interpretação seja o ponto chave de todo o sistema legalista Kelseniano.
A influência norte-americana é perceptível na sua tendência a localizar a interpretação num enfoque de competência operadora, e não doutrinária; se para tal teoria o direito surge da norma positivada, não estaria propondo o alicerce para a posição de poder do operador do direito?
O legislador imprime sua vontade no texto normativo, mas as palavras cedem obrigatoriamente espaço para uma interpretação, pois todo processo lingüístico é um processo intersubjetivo, é uma troca, do enunciado para a compreensão de quem interpreta.
Com isso, nasce a idéia da necessidade de existência de uma interpretação autêntica, de uma fictícia “interpretação verdadeira”, de achar a verdade escondida no texto legal. A própria noção de ordem jurídica exige o pressuposto da segurança jurídica, portanto, para o direito positivo, alguma autoridade competente deve criar o direito com uma interpretação.
Toda interpretação é um processo de doação de significados, todo aquele que interpreta algo o compreende de maneira diferente, existindo aí vários modos de interpretação, mas de grosso modo, só nos interessa diferenciar a interpretação não-autêntica da interpretação autêntica do órgão competente no ato da aplicação do direito.
Proponho-me a colocar a temática da interpretação jurídica Kelseniana de uma forma comparada utilizando de analogias literárias, munido de extratos de Lewis Carrol (Through the Looking Glass) e de Cervantes (Don Quixote),com o objetivo, de apontar as relações entre as teorias da interpretação autêntica e não-autêntica a algumas teorias da interpretação literária segundo o meu ver.
No início do livro – Alice Através do Espelho há um poema escrito com uma métrica anglo-saxã perfeita, mas com palavras ora em portmanteau, ora em nonsense, ou seja, de palavras inventadas através da síntese de uma ou mais palavras para formar uma nova, ou de palavras de criação arbitrária por parte do autor. Alice, ao ler o poema, se sente segura que ele quer dizer algo, mas não consegue interpretá-lo com segurança, pois não possuía nenhum método de interpretação válido ou ferramentas para fazê-lo, até encontrar o personagem de Humpty Dumpty, que é a voz do órgão judiciário competente para a interpretação, ele analisa a primeira estrofe do poema Jabberwocky: 

“Twas Brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe”

            Antes de analisar a estrofe, Alice o pergunta – “Será que você pode fazer as palavras significar tantas coisas diferentes?
            Ao que Humpty Dumpty responde – “A pergunta é, quem é o mestre? - Isso é o mais importante”.  E diz ainda – “Quando utilizo uma palavra, ela deve significar exatamente o que eu quero que ela signifique, não mais, e não menos.”

            O órgão legislador é o autor, que cria o poema, e as regras de interpretação, mas ele não cria interpretações corretas por si só, precisou autorizar Humpty Dumpty a dar significados específicos às palavras chaves, como quando diz que slithy seria a junção de slimy e lithe , e diz ainda mais; que lithe nesse caso, significaria ativo, não lentidão, que são os dois significados possíveis de lithe, do latim lentus ou do termo em inglês antigo lîthe (gentil, gracioso, atlético).
            A interpretação de Alice no começo do livro era não-autêntica, pois mesmo que entendesse que se tratava de um poema, e conseguisse encontrar um sistema, não conseguia encontrar nenhuma jurisprudência para legitimar a sua interpretação.  Lewis Carrol, como o legislador do texto, dá autoridade quase que constitucional para o personagem, cujas chaves lingüísticas até hoje são utilizadas por tradutores do poema para uma tradução mais precisa. Nenhuma tradução pode ser dita legítima, pois não é concordante com os jogos de palavras em língua inglesa do original, colocados no espírito do texto.
            Ao dizer que a palavra significa o que o mestre quiser, Humpty Dumpty, antecede a Kelsen na idéia da possibilidade de existência de chaves de interpretação, propostas pelo legislativo, que autorize um poder judiciário, ou operador do direito, a criar uma nova interpretação com a aplicação do Direito na vida real.
            A transfusão do poder das mãos do órgão legislador para as mãos do operador do direito é como o uso da linguagem. Lewis Carrol, em cartas sobre a temática da interpretação do seu poema deixou claro que era também sua intenção que houvesse um espaço livre para a interpretação do leitor, na medida em que ele não especificou o significado de todos os termos inventados, e mesmo que existam ilustrações, filmes, e obras derivadas do Jabberwocky, nenhuma pode pressupor ser a verdadeira, todas possuem igual espaço para diferentes interpretações, que como dito por Kelsen, toda lei precisa de um espaço para ser interpretada, senão o ordenamento jurídico seria uma besta imutável, e logo se comportaria como uma irrealidade não compatível com a vida social, que é inconstante e mutável.
            A interpretação dos apreciadores da obra é comparável a interpretação científica, que é um processo cognoscitivo - Pode entender o funcionamento e o sentido das normas gerais, mas não cria a interpretação correta. Para a teoria pura, o ato da análise por parte dos apreciadores que não órgãos operadores, só pode “estabelecer as possíveis significações de uma norma jurídica. Kelsen não acredita que a interpretação jurídica em momento algum seja só uma questão de conhecimento do ordenamento jurídico pré-existente , mas sim uma questão de política, em seu sentido quase maquiavélico, de que o “príncipe deva fazer tudo aquilo que se encontre em seu poder para manter-se no poder e para beneficiar o seu reinado”. Aí o caráter voluntário político é mais forte que o do saber científico, ele reconhece que o poder de criar direito não vem da norma escrita em si, mas de que fala o operador sobre a norma, acerca do espaço interpretativo deixado pela própria letra normativa.
Sobre a hierarquia das normas, ponto encontrado tanto no referente a relativa indeterminação do ato de aplicação do direito, e da indeterminação intencional do ato de aplicação do Direito, volto a alusão a obras literárias como fontes de exemplificação teórica.
A parte introdutória do livro El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha possui alguns poemas em décimas, de caráter humorístico, que eram chamados de décimas de cabo roto; consistiam em versos que suprimiam as sílabas finais depois da silaba tônica de cada ultima palavra, como em:

“ De um noble hidalgo manche-               No indiscretos hieroglí-
contarás las aventu-,                                  estampes em el escu-,
a quien ociosas lectu-                                 que,cuando es todo figu-,
transtornaron La cabe-;                             com ruines puntos se envi-.       
damas,armas,caballe-,                               Si em la direccíon te humi-,
Le provocaron de mo-                             no dirá mofante algu-:
Que,cual Orlando furio-,                       <<!Qué Don Álvaro de Lu-,
templado a lo enamorado-                         qué Anibal el de Carta-,
alcanzó a fuerza de bra-                            qué rey Francisco em Espa-
a Dulcinea del Tobo-. “                            se queja  de la fortu-! >>.

(primeira parte, preliminares)
A determinação do significado de cada verso, necessita de um conhecimento prévio das palavras, como manchego, aventuras, lecturas, cabeza , caballeros etc. Além desse nível cognitivo, ainda há um nível de determinação pré-existente, que é a condição de conhecer as obras as quais o autor se refere, como damas, armas, caballeros, que é retirado do prólogo de Orlando Furioso de Ludovico Ariosto. A composição e compreensão do caráter cômico de Don Quijote só se tornam cômica se forem levadas em consideração as suas origens como um reflexo humorístico da literatura medieval da cavalaria andante, e dos heróis superexaltados e perfeitos, que serviram de base para toda a sátira presente na obra de Cervantes.
            É o chamado - Círculo Hermenêutico, onde cada nível de interpretação necessita de uma compreensão pré-existente, e antes dela uma pré-compreensão, e assim por diante. 1111111
                Coloco ai a relação da indeterminação como – O conhecimento anterior das obras mencionadas permite a emolduramento, ou vinculação do sentido geral das décimas.
O sentido adotado pelos interpretes é de que – Num jogo de cartas da época, as figuras (soldado, cavalo e rei), tinham pouco valor (ruins pontos), e quando se aposta com elas (se endivida), é fácil perder a partida, se na dedicatória te mostras humilde ( te humilhas), nenhum malfeitor poderá dizer que acabarás como as grandes figuras históricas citadas, que acabaram em desgraça ( decapitação, suicídio, prisão etc.)
Faz-se necessário então, primeiro conhecer as obras mencionadas, para completar as estrofes, e só a partir daí, é que se pode começar a achar os espaços de interpretação propostos pelos enunciados, o lado não intencional da interpretação, é o enquadramento dos termos lingüísticos em todas as suas apreciações possíveis pela parte do leitor, é impossível que duas pessoas ao ler o mesmo texto possuam o mesmo grau de conhecimento acerca todos os aspectos da obra, como dito por Kelsen
De todo modo, tem de aceitar-se como possível investigá-la a partir de outras fontes que não a expressão verbal da própria norma, na medida em que possa presumir-se que esta não corresponde a vontade de quem estabeleceu a norma “
Sempre poderá se focar numa análise do texto com um novo ângulo investigativo, e através de novas ferramentas lingüísticas, pode querer se focar no aspecto do estilo literário ou do enfoque histórico É sempre passível de novas interpretações que se encontrem dentro da moldura, as décimas são as molduras, e os enfoques são as várias possibilidades de aplicação. O leitor é livre para apreciar a obra como bem entender, contanto que possua o mínimo embasamento teórico para localizar uma idéia geral da intenção do autor.
A necessidade de achar uma chave de interpretação da norma, na figura de um órgão operador do direito autenticando uma interpretação, é necessária, pois o positivismo jurídico depende do pressuposto da segurança jurídica.
            Para a aplicabilidade da sistemática jurídica, deve-se sempre ter em mente que o objetivo máximo dos métodos interpretativos, é reduzir o número de possibilidades interpretativas para um número prático e viável, para criar um sentimento de proteção.
            A crítica a Kelsen baseia-se na sua incapacidade de encontrar métodos dogmáticos de interpretação, e relegando a atividade interpretativa ao mero poder “tirânico” do operador do Direito.    
            “A Teoria Pura do Direito trata o Direito como um sistema de normas válidas criadas por atos de seres humanos. É uma abordagem jurídica do problema do Direito.” - Hans Kelsen.
            Ora, a crítica pós-positivista entende que para o direito ser válido, deve ter o povo como titular do poder do estado (um dos fundamentos do estado constitucional), o bem estar social deve estar sempre em primeiro plano, não apenas a autoridade normativa, pois as autoridades, não são nada mais que representantes da soberania do povo, como colocado por Paulo Bonavides.
            Imaginemos agora, que dom Alonso, o dom Quixote, tivesse sido nomeado Governador de uma Ilha, e através de seus conhecimentos dos antigos códigos da cavalaria andante, resolvesse implementar uma nova idade média na sua ilha em pleno território espanhol do século 17; através de decretos que estabelecessem normas de comportamento, de etiqueta e mesmo de fala antiquados. Agiria o nosso fidalgo de forma mais incongruente do que já agia no seu livro, pois, a realidade social de sua época não admitiria tamanhas ambições de ideais heróicos ou cruzados da vida da cavalaria. Ele estaria usando de uma chave interpretativa imprópria para criar normas jurídicas. Seriam as chamadas normas constitucionais inconstitucionais.
            É por essas e outras razões que se faz necessário o uso das novas técnicas interpretativas na atividade hermenêutica, todas elas em conjunto, a análise gramatical,a análise lógica, a análise sistemática, a análise histórica e a teleológica.
É preciso fugir do autoritarismo normativo Kelseniano. A interpretação autêntica existe, mas, como bem disse Michael Miaille – É necessário adequar o direito à realidade social, às ideologias, aos conceitos de justiça e aos processos institucionais e normativos. Não se pode mais concordar que exista Direito legítimo sem o pressuposto de resolução de conflitos e de busca pelo bem estar social.
Seria igualmente precipitado descartar o mérito da Teoria Pura para com a criação do positivismo Jurídico e suas profundas influencias na criação do Direito moderno, o mais justo, no sentido de apreciação de mérito, é que ao ler-se sobre a Teoria Pura e seus métodos de interpretação, haja espaço para apreciação do momento histórico e da finalidade do autor, afinal, até a teoria de Kelsen não possui uma única interpretação verdadeira. 

domingo, 16 de outubro de 2011

Hubris ou (Megalo)manias Mesopotâmicas




No palácio em Uruk, repleto de pompa e cerimônia; a cada sorriso do grande líder, miríades infantes copiosamente lacrimejavam . À cada cingir de suas sobrancelhas, seus súditos dançavam em perfeita harmonia coreografada - numa explosão de cores e ritmos na esplanada central, por baixo dos arcos comemorativos de seus mais fabulosos triunfos.

Como líder; filho dos deuses e pai de seu povo -  não poderia ser descuidado com sua vida e sua imagem. Todas as árvores nos seus domínios o pertenciam, e escalar uma delas era um atentado contra a sua honra.

Seu dever maior era proteger o povo de si mesmo, e dos tiranos dos potentados vizinhos. Afinal, a população, suas crianças : Não possuem o esclarecimento e a racionalidade que ele obteve de Ishtar, ou de Enlil. Estes eram fardos seus; cuidar para que seus amados súditos não caíssem nas mentiras e nos vícios morais. 

Ao subir no poder, o Grande Imã havia predito – “Superará todos os outros príncipes! “Aquilo o agradara muito, e como era do seu feitio, resolveu colaborar com a profecia.

Em prol de todos os seus filhos, o povo : Ordenou o assassinato dos líderes dos estados limítrofes, massacrou as tribos que seguiam outros deuses, e mandou construir em cada vilarejo um monumento em sua honra. Só para que não houvesse dúvidas acerca de suas legitimidade e ascendência.

Até que um dia, o império de infiéis o enviou um plenipotenciário, com um protesto formal sobre; o suposto massacre de mercadores, nômades em peregrinação, o confisco de galeras e barcos de juncos que navegavam por seus mares territoriais.

O benevolente Basileu, soberano, filho de Aruru, e Ishtar, possuía deveres mais urgentes, condizentes com a sua posição junto ao patamar dos deuses que habitam as profundezas. 

Mandou consultar seus sacerdotes, mercadores, generais e ministros do conselho de estado, que eram todos de seu sangue. 

Estes o deram o parecer de que, o emissário mentira-  e que cada vez que uma palavra escapava da barreira dos dentes, proferia um crime contra todas as gentes e deuses, e contra a divindade do Grande Líder!

Deixou a decisão mundana nas mãos deles, que cortaram o nariz e as orelhas do facínora, e o enviaram de volta num barril de esterco.

Na primavera do ano seguinte, enquanto observava a dança costumeira das virgens, das quais poderia exigir o direito de senhorio,  recebeu um tablete de um de seus sátrapas relatando a movimentação de tropas inimigas. Uma incontável coalizão de nações.

Consultou novamente o sumo sacerdote e o general dos exércitos, seu tio e seu primogênito, respectivamente, que novamente o garantiram augúrios vitoriosos, e a aparição de Namtar, o deus da perdição, na direção da invasão.

Com todas as hecatombes devidamente celebradas, abençoou suas brigadas que partiriam para a glória, e voltou-se às suas preocupações mais urgentes, a escrever sua história para a posteridade, e das revelações que recebia dos céus.

Morreu um mártir para o seu povo, que certamente o lamentará por toda a eternidade.

domingo, 2 de outubro de 2011

Tempus Fugit

Há através da ideia de progresso, no curso temporal dos movimentos,um certo contínuo sequencial que traz em si um clamor marcial de -Victori Spolia - Ao vencedor, os louros da vitóriaComo se tudo que vier em seguida, seja espontaneamente mais legítimo que o modelo anterior..

O que o ponteiro ultrapassa é devorado pelo abismo, e o novo passa a ser verdadeiro. O belo perde as cores, torna-se árido, é olvidado. Tons outrora ressonantes e melódicos tornam-se ruídos desarmônicos , cada vez mais longínquos, e ainda assim, irritantes.

Gilgamesh, aquele que viu as profundezas,não nos pode mais ensinar coisa alguma. Fora subjugado, seus feitos apagados dos tabletes; agora se defronta com o vazio. Dante não atravessa mais o Pórtico infernal. Agora o mastigado e digerido resumo vale mais que o deleite nas referências, é o deleite de deletar. Assim corre a história.



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Δαμοκλῆς, ou a fama do povo


Que pena! Aristóteles não conheceu a nossa sociedade: 
Neste governo à la Ayn Rand, quiçá constataria que estamos todos sempre corretos “Vivemos no melhor dos possíveis mundos” - Proferiu o mestre Pangloss. Fora daqui, Sólon! - Quem disse que necessitamos de suas reformas?



terça-feira, 29 de março de 2011

A Poltrona


Em uma sala há muito olvidada, repleta de odores e cores desbotadas, rachaduras úmidas e objetos sem memórias, relegados  ao jugo das intempéries; havia uma criatura prostrada numa poltrona multicor

De tudo a se ver na sala, a criatura era sem dúvida; o aspecto mais abatido e desprezível. 
O encosto da cadeira causava chagas por todo seu dorso. Enquanto isso, o painel de vidro obscurecido de seu paranoico relógio não o permitia certeza da posição dos ponteiros.

Dele emanava o rítmico lembrete, que impunha um desafio às suas dores e a sua paciência.
A fuligem ou os fungos o impediam de determinar o momento do dia. A sala era tão fétida e obscura, as janelas vedadas por desconfiança das crianças irritantes das redondezas. Talvez a incerteza ao fitar o relógio, fosse só de seus velhos olhos, quiçá fosse efeito do álcool misturado com sua excessiva medicação.

A hipocondria era comum à sua idade, mas o ócio o envelhecera muito antes de seu tempo -
O menor incômodo o levava a imaginar as mais pavorosas condições médicas possíveis.
Segundo seus cálculos, e pelo silêncio mórbido circundante, deveriam ser umas três da manhã.
A fadiga já lhe alcançara há muito e prestava testemunho à mesma conclusão.
Se realmente fossemos o julgar imparcialmente : É impossível recordar-se de uma era quando fora minimamente energético ou industrioso.

-Moveu-se! Como num último ato de coragem de um animal que tenta fugir das garras de seu algoz! Porém não fora exatamente um movimento voluntário, mas sim de amargura.
O estofado da poltrona cedera mais um pouco, e outra mola enrustida o lembrara de suas feridas.
A agonia era como uma picada de escorpião. Espalhava-se pelo corpo, e a contorção o causara ainda mais sofrimento.

Moveu-se para acomodar-se, para evitar aquele foco de dor e esperar o próximo.

Então cedeu as divagações. Pensamentos cinzentos subjugaram-no. A dor abrira os pórticos das incertezas, e agora sua alma ardia ( isto é, se um ser como ele tiver uma). De sua essência restava a fuligem do que fora até então sua existência.

Mentiria se o chamasse de homem. Não era um homem, jamais fora.
- Era a Hidra de Lerna em um antropomórfico  invólucro. Durante seus dias tivera diversas faces, que iam sendo ceifadas, dando lugar para diversos outros enigmas. Não era um homem, fora todos os homens, fora tudo aquilo que era vil, e para cada situação que o universo o arremessara, mostrava um semblante diferente. Desde o mais belo e inocente, ao mais pútrido e ácido.

Não ousaria acusá-lo de falsidade; pois, a todo instante tivera sido totalmente congruente com a máscara que trajara.

A sua presente forma física dificultava sua respiração, que era ofegante e ruidosa. Sabia muito bem do fim de seu percurso, mas não havia mais remissão...

Indagava-se – Como teria chegado a este ponto? Onde repousa a beleza de outrora, dos dias de Sol?  O movimento em sua vida, porque cedeu a inércia? Houvera ao menos resistido ?

sábado, 19 de março de 2011

Uma receita : por Ozymandias

Cena : César e Xenofonte se encontram num bar, no Limbo Dantesco -

César - Ilustríssimo camarada, sou muito grato pelas preciosas dicas de marketing e publicidade! A propaganda deu certo!
Xenofonte - Ah meu caro, eu havia dito que funcionaria, você por acaso seguiu todas as diretrizes daquele meu livro de autoajuda?
César - Da Anabasis?¹ Sim, e como! Segui bem aquele modelo prescrito!  Me veio o tolinho do Octaviano me perguntar:
"Titio Gaius, como você correra em auxílio da Décima Legião Equestre! Que Coragem ao portar a Gladius  frente às linhas! Você não temeu aqueles belgas peludos?"
Xenofonte - Ele realmente acreditou que você estava naquele Alarum todo?
César - Ah, pobre puer aeternus... Ele crê até que a solução para a glória Romana é monogamia e a santidade do matrimônio... É cada uma! Jura que um dia vai me convencer a forçar o senatus populesque a se pronunciar sobre isso. Cícero que se diverte com esses devaneios do garoto.
Xenofonte - Ele deveria primeiro ensaiar no Odeon de Péricles! Um cômico nato!
César - Já que você tocou no assunto... O esquentado do Sula acabou incinerando o teatro... ²
Xenofonte - Nem vem, que eu ouvi falar que você fez o mesmo com a biblioteca na cidade de Ptolomeu. Para se livrar dos registros fiscais das remessas de trigo!
César - Eu juro que foi um acidente! Houve uma revolta. Foi uma confusão tão grande. Fugiu ao meu controle!
Xenofonte - É, se ao menos você fosse um líder abençoado pelos Deuses, como eu frente à minha miríade! Ah aquele retorno da Ásia !
César - Certamente! O que teria sido da expedição sem sua liderança nata? Quantas vezes você não averteu o desastre com um vigoroso discurso?
Xenofonte - Você também honrado colega, quantas mães romanas não agradeceram pela sua obra na pacificação da República? Ah, Bella detesta matribus!
César - Mas enquanto o vinho não chega, topas uma partida amigável?
Xenofonte - Claro, valendo o quê?
César - A estima da posteridade - anerriphtho kubos! ³

 _____________________________________________________
1 Ἀνάβασις  (Anabasis) - A Obra mais famosa de Xenofonte, narrando o retorno da expedição mercenária Grega contratada por Ciro da Pérsia, para usurpar o trono de seu irmão Artaxexes II. Inspirou a invasão do Império Persa por Alexandre

2  Lucius Cornelius Sulla -General e estadista romano , destruiu o Odeon de Athenas durante a revolta de Mitridades em 87 a.c. Bem como foi o primeiro ditador a marchar contra a cidade de Roma, exemplo seguido posteriormente por Caesar

3  Plutarco - Vida de César, capítulo 32. anerriphtho kubos - (Lancem os dados). Frase pronunciada por César ao cruzar o Rubicão em 49 a.c. , iniciando a guerra civil contra Pompeu.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Tirania da praticidade


Da tirania da praticidade.

Desperto. Metálico lembrete sonoro do movimento temporal.
Erguer-se sob um morno horizonte, contemplativo:
(Re)Começa tudo.
Desperdício?
Pueril instinto, que o honrava com alguns momentos de misericórdia,
a si mesmo no leito; relutante.  Vozes que outrora diriam:
Mais um tanto, e a face em nirvana - aguarde!
Não mais. (Possui regimentos e estatutos belicosos).

Indeciso? Nos refinamentos. Vide: Escolhas tropegas
Parece mais prático banhar-se; a água facilita a circulação.
(In)consequente estímulo às sinapses.
Daí, para a ração...Basta seguir o tom do comum.
Ao rufar de uma marcha de Mahler.