segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Canção de bosque

BEKSINSKI, Zdzislaw. AA78, 1978.

É um vazio existencial tremendo. E como me dá fome estar nele jogado, arrastado por um retorno à pátria-mãe. Longe do solo da infância é que se pode ser si mesmo e viver como si-mesmo e sonhar e comer. É um vazio tremendo e imenso e dá sono e tira a fome e angustia. Lacero-me o braço e as pernas ao coçar e arranhar; impelido por um desconforto indeterminado e imensurável, lacero-me até mesmo o lacerar. Como dói o voltar do mesmo... Como entristece pensar que tem de ser como o é, para que de fato seja. É uma existência tremenda e como o seu vazio, no seio da pátria-mãe dá fome! Que venha o bosque.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Brief an das Nichts

GOYA Y LUCIENTE, Francisco de. Saturno devorando a un hijo, 1820-1823.


Liebster Freund,

Ich warte noch auf dich, obwohl ich schon tot bin. Ich warte aber noch, weil dein Geist mir so wichtig war. Ich warte auf dich, wegen meines Lebens, wegen meiner Angst, um allein zu sein. Wäre es nicht schön, wenn wir wieder zusammen wären? Du warst ja mein Freund; du bist noch mein Freund - der Liebster! Ich warte auf dich, um nicht mehr allein zu sein... Ich warte, hier im Nichts. Hier warte ich auf dich!

Mit freundlichen Grüßen,
Das Ich.

domingo, 5 de outubro de 2014

Γλαῦκος, o imortal

WATERHOUSE, John William. Circe Invidiosa, 1892.


Ficamos velhos, se antes não morrermos,
irremediavelmente.
Nada Valemos? Que com isso ganhamos?
Alguma coisa decerto.

Um quê menos estúpido do que
na vida esperanças depositar:
Tudo o mais! Os previdentes
Nos respondem: tudo o mais o é.
Antes esperar, como o fazem
Apenas poucos, não naturalmente!

Certo é padecermos de males tantos,
Indefinitivamente.
Com o tear da vida despercebidos:
Destino amalgamado.

E quanto vale um tecido já
Rasgado, perceberemos, contudo -
Já aos passos apressados, rumo
Ao melhor; inconteste, fugidio.
Mas manter-se-ão ocupados os
Braços relegados e esquecidos.

E para quem a vida oprimida resta,
O mostrar-se delirante.
Diante dos fios - aceitação difícil:
Ser unido ao divino.

domingo, 14 de setembro de 2014

Θάνατος

KLEVER, julius von. Der Erlkönig, 1887.


Porque é a morte quem sempre vem. É a morte quem [sempre] devora; e, através do sótão da nadidade, nos lança (a todos) no esquecimento. A morte não é um lugar, mas a carência de um: Θάνατος.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Requiem pro defunctis

GHEYN, Jacques de. Vanitas Still Life, 1603

[Recomenda-se seja lido em conjunto com "Tumba Mirum" de Alfred Schnittke, 3'52'']

Decepam-me as mãos: Ah! estes dedos finos que me olham. Caídos em medonho fogaréu, sisudos e melancólicos, esgueiram-se em apontar que a mim já não pertencem. E mesmo quando já tão esbeatados, largados ali em solo quente, vejo-os vivos e encaram-me tristonhos; olhar lacônico daqueles que a fala não dominam. Apontam-se a mim e eu a eles, por meio de meu grito agudo, pois a falta que eu sinto também eles a sentem - fôramos tão próximos outrora... Agora, ligados apenas pelo sangue empoçado, apontam-me todo o meu estar deles carente. E não que eu não possa tê-los, tanto é que para a minha consciência ainda os tenho e encaro-os como produto de futura atividade cadavérica. Pois é certo, amigo leitor, que esta carta que tens presa às suas garras, é fruto de fantasmagorias: o necromante que a escreveu tirou de minhas decepadas partes o fruto dessas palavras lidas e desdenho-me em vida a própria morte, que ocorreu. Mas passados instantes de um grito, contido a lábios presos entre os dentes, o sangue, aquele que empoçado estava, foi o garante da magia, cuja atividade espúria lançara um feitiço contra o tempo e permitiu que os mutilados membros, que olharam-me tão vivamente, produzissem ainda tal efeito que é hoje impossível dizer que dia é ou que horas são. Estou preso em um momento muito específico de minha vida e fustigo os meus pensamentos com lamúrias; estou preso em minha morte, quer dizer, no momento em que ela se deu. Essa é a tamanha angústia que os braços, as roupas, os beiços, os olhos e tudo o mais desse desgraçado desse mago me presentearam. Preso! Livre da morte, é claro, mas preso em minha consciência. E ainda por cima obrigado a escrever por meus punhos inexistentes! Amaldiçoo o dia em que fui obrigado a desejar. Obrigado, eu? Eu o quis! Agradeço por ter ainda para mim esse momento de prazer eterno! Vejo todos os dias o escarlate do meu éter venenoso, gosmento e antigo, e pasmem vocês, meus leitores nefastos, eu gosto disso! Sou obrigado a reviver cada instante de minha morte; e como isso é proveitoso. Aliás, é como olhar em mim mesmo o que a mim me falta. É o ápice de mim mesmo! Isso, o ápice de mim mesmo!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

(Uma) Paródia "pós-moderna" [sobre a essência do cômico]

MAGRITTE, René. La Trahison des images (Ceci n'est pas une pipe), 1929.

[Recomenda-se seja lido em conjunto com "Gesang der Junglinge" de Karlheinz Stockhausen]


[Um conto - (uma) paródia "pós-moderna"]

Não existe o feio ou o belo, apenas o tosco! Eu sou o tosco, tu és o tosco e ele também o é. Mas é claro que existem toscos mais bonitos e toscos mais feios... Afinal, quem disse que não existe o feio ou o belo?! Eu sou o belo, tu também. Mas se o tosco é belo, então o que é o feio? Não existe o feio, mas o feio sou eu. Eu sou o feio; o feio és tu. O tosco é o feio que é o belo que é o tosco que é o belo que é o feito etc. Ora, e não é verdade que não existe verdade alguma? Esta verdade é apenas consensual, mas não existe consenso algum. E não existe verdade alguma sequer, pois nada é, e esta é de todas a maior verdade. E o tosco-belo-feio (que todos e cada um de nós somos) nada mais é do que o próprio veredito da verdade da inverdade que se dá verdadeiramente na relação casual que sempre ocorre. Eu sou o tosco e o tosco sou eu, mas nem eu e nem mesmo o tosco são.


[Um axioma e meio - um sorriso que chora]

Nem sempre é fácil definir o que as coisas são, mas a essência do cômico surge quando, a partir de confusões conceituais, ambas são expostas em sucessão, como um sorriso em um rosto que chora.


[Uma aporia resoluta? - "Ceci n'est pas une pipe"]

"Foi suficiente ao desenho mais correto uma inscrição como "Isto não é um cachimbo", para que logo a figura esteja obrigada a sair de si própria, isolar-se de seu espaço e, finalmente, pôr-se a flutuar, longe ou perto de si mesma, não se sabe, semelhante ou diferente de si." (FOUCAULT, Michel. Isto não é um cachimbo. São Paulo: Paz e Terra, 2008. p. 48).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sein-zum-Tode (als verborgen)

ERNST, Max. Der Hausengel, 1942.
[Lesen Sie gemeinsam mit "kosmogonia" de Krzysztof Penderecki]

Julia ist 46 Jahre alt, aber sie fühlt sich wie eine 30-Jährige. Das ist der Grund, warum sie sich immer auf die Vergangenheit bezieht. Sie hat einen Hund und ein schönes Motorrad: Denn sie glaubt, jünger zu sein, als sie in Wirklichkeit ist. Auch wegen dieser Beziehung, die sie mit sich selbst hat, trinkt sie sehr oft; und sie tanzt, isst und schläft, immer wann sie es kann. Nun reist sie, um nie mehr zurückzukommen, weil sie stirbt, während ihre Leben vorbeigeht.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

ζωή

VAN GOGH, Vincent. Noite estrelada sobbre o Ródano, 1888.

[recomenda-se seja lido conjuntamente com "Gnossienne n. 1" de Erik Satie]


[prólogo - um axioma banal]

Você sabe quando uma pessoa está louca - ou quando tende à loucura - apenas em nela depositar o seu olhar (e ouvir dela as suas primeiras palavras)...

[colocação do problema - Léo e a loucura]

Léo estava deitado na areia e era um fim de tarde, mas várias reflexões assolavam-no enquanto assistia ao cair do sol atrás de si. Bem, não era ele quem estava louco, muito embora isto fosse possível, mas a loucura de todos era o que lhe batia com força na porta da inquietação! Claro que com estes pensamentos, sendo ele também um "mundano" - por estar junto a todos no mundo -, ele começara a refletir sobre sua loucura; mas este é um texto para outro dia ou talvez para nunca mais. Para Léo, neste momento, só importava saber como era fácil reconhecer um louco; e, por que não, como era fácil ser um... Bastava um olhar e poucas palavras; mas será que só isto? O que é que estava nisso contido? Talvez isto fosse o mais premente... Quiçá até o momento necessário para identificar um ou o outro caso.

[entreato - um axioma incomum]

Pois é no escuro que surgem os devaneios (ao menos é aí quando surgem os bons)!

[solução aporética - Léo e o fim da tarde]

Mas ele ainda deitado na areia e pouco a pouco aparecia a noite, ao substituir seu filho, o dia. Por exemplo, quando se fecham os olhos, ao se contemplar o fato de não ver, começa imediatamente uma cadeia de rememorações e criações espectrais (no que for possível falar em 'espectros' ou coisas semelhantes); e, então o mais escuro dos pensamentos surge como algo absurdo; mas logo após torna-se aceitável e, por fim, uma verdade (algo legal e colorido, como pensava Léo). E foi quando os últimos raios de Hélio, filho de Hyperion e irmão de Aurora celeste tocou os mantos do horizonte; foi aí que Léo levantou... Ele ainda não era destemido o bastante para saber enfrentar suas horas escuras em um lugar tão indomável como a natureza artificialmente planejada de uma praia de veraneio. Pois, apesar de ter sua casa tão próxima e de reconhecer que ao fechar os olhos fica tudo negro e sem "forma", ele pensara quão reconfortante seria poder abri-los e tudo ainda lá estar.

[posfácio - ζωή]

E, assim, não só largou na praia, ao prazer de Pontos, a sua dúvida sobre a loucura, como conquistou para o mundo o status de 'louco'.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O esvair-se do claro

BEKSIŃSKI, Zdzisław, 1983.
[sugere-se seja lido em conjunto com "Deshominisation" de Alain Goraguer.]


[Prelúdio]

Oh! Estes pensamentos das horas escuras... Conheço-os bem; malogro quando não... Findo o vespertino que, diante das portas da noite, jamais!

[Primeiro ato - um cravo e uma flauta doce]

Ao fundo uma flauta entorta o ar e me lança em prazer... Ou não seria isso complacência? O cravo marca o meu badalar e lanço-me outra vez em horas escuras; eu, este; eu o balouço de meu eu, isto. Pensando sobre mim como algo distante. Lançado, sem mais, com(o) a profundidade de um lago gelado, longe e coberto por montanhas, em todas as minhas (tão minhas!) horas escuras!

/hic clausula est/

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vermelho (necessariamente em...)

MUNCH, Edvard. Love and pain (1893-94)

[Sugere-se que a leitura seja acompanhada de "Epei" (1976) de Iannis Xenakis]

Tem certeza, pequena; em algum momento o sangue ainda abrirá as tuas mãos em cor e férreo cheiro - e, embora não sintas dor, sofrerás uma das maiores agonias... Pois esta raiva que tiveste não a tempo contiveste e o vermelho em teus nódulos são daquele corpo inerte - que a frente se te projeta. E sim, pequena, assumirás a culpa - se não com a palavra, com o silêncio e a eternidade da loucura. Tu que sempre comedida e asseada foste, não passas de um fruto podre - pelo qual vermes amarelados dão o tom de tua doença. E padeces, com certeza; isto não negam os demais: padeces irascível de tua tão grande ira. Morreu aquela doce imagem - que agora tão só simulas; és um ponto de ti mesma, mas bem não mais te reconheces. Viva e presa neste sangue que escorre de teus punhos.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Parnaso: entre Bóreas e Nix


O sono caminha distante pelo parnaso, lindo e belicoso tal qual o vento do norte para os frutos. Pedro navega sentado longe da arte, que calma e redonda obra lhe oferece o sonho. Mas seguem caminhos adversos já tarde, cujo estreito prolonga-se por mais um pouco. A cama lhe chama tão belo o nome, mas foge a vontade que lhe tem medo. É limpa e macia a fronha exposta, qual lago profundo não se aventura. Pois perde-se em medo o pequeno frágil, que é Pedro em galope e adentra a noite.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Aranha disciplinar


"Volte aqui meu amigo... Vamos conversar mais!", gritara Alberto para aquele grande charlatão que era Emanuel. Tudo acontecia em uma prisão - estilo o pan-óptico, com sua torre central - e os dois eram já há mais de duas semanas companheiros de cela. Ambos já estavam tão acostumados um com o outro que era impossível separá-los... Mas bem, eles estavam unidos pelo "olho central" e, ainda que quisessem se ver livres um do outro, seu pedido lhes seria negado pelo controle disciplinar: o seu amigo - quase único além de si mesmos (que já compartilhavam de um só corpo; corpo doutrinado) - [o seu amigo] "olho central". Aquele espectador faminto, que se expunha contorcido em volta, como uma aranha, ao alcance de tudo que sobre suas teias. Este, ao perceber o movimento e o tambor vocal do assassino em direção ao charlatão, rufara: "Números 1.531 e 1.532, preparem-se já para a inspeção!". Silêncio: mais um dia de disciplina.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Real: introdução ao desespero


Sentado na cadeira de um quarto pequeno - à sua frente um computador e ao seu lado as roupas em um varal improvisado -, B. quisera mais do que qualquer outra coisa chorar. Só isso: chorar e chorar. Lembrou-se de todas as outras vezes, entretanto, em que, no seu passado, ao ter este semelhante sentimento, prendera-o e controlara-o. Não conseguira em uma despedida e sequer em um enterro - qualquer lágrima que viera, ficara tão somente por dentro (e, ainda assim, escondida). No clube do silêncio - onde não há música e não há nada -, as suas lágrimas eram reais; mas, contidas pela força de um simulacro, sua face limpa era ainda mais.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bana(na)lização


Óculos estavam pendurados por todos os cantos da sala. Um na mesa de canto, outros no lustre e outros na janela; mais alguns na mesa de centro e um único caído no chão. Vários móveis estavam espalhados ali também - e quase todos ou enchiam-se de livros ou de óculos. Talvez por causa disso o ambiente cheirava mal, mas ainda era possível que fosse um prato de comida que ficara esquecido desde a última quarta-feira na escrivaninha inútil. A janela estava fechada e apenas um buraco de traça permitia um pouco de luz na sala. O raio, por sua vez, batia justamente naquelas lentes jogadas no chão; e, por conta da resina, o que era amarelado saia colorido. Uma barata observava curiosa a refração e o corpo doente daquele que havia comido jazia morto ao lado. Talvez a barata estivesse nele interessada.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Anátomo-grafologia


Em um canto de uma mesa redonda, aberto, porém não escancarado - se isso é possível de alguma forma, sem que mãos o segurem -, estava um livro qualquer que um anônimo leitor esquecera. Ele era marrom e pequeno: mas junto de outros livros de mesma cor [i.e., marrons] dir-se-ia  que puxava para o verde, enquanto já ao lado destes, ao amarelo (fato, entretanto, que faz necessário dizê-lo marrom, ou não?). De seu tamanho, embora pequeno, nada muito importante, senão comentar sobre sua pequenez junto ao outro que lhe fazia companhia; mas maior que a mão do leitor aventurado neste texto. Aliás, quem era, afinal, esta pessoa misteriosa? deve-se pensar a princípio que isto não vem ao caso, em razão de seu anonimato; entretanto, estaria ali o livro se não fosse por ele? Estaria uma página deste antigo artefato manchada de suor se não o tivessem tocado e manuseado? E por que não dizer: existiria um livro se não houvesse quem o lesse? Nem mesmo hipoteticamente isto seria possível - enquanto fosse um livro este "livro". O que se escrevera nele, contudo, era um mistério completo: não só devido ao seu banal esquecimento, mas acima de tudo por não mais ser possível lê-lo como escrito, senão como lido. E é por isso que as resenhas sempre dizem algo tão comum... Algo evidentemente refletido na ignorância do normal... Algo tão vulgar e meticulosamente desmedido como "esta é a história de um rapaz...". Não é para menos que Poe, como um corvo - com seus olhos pretos e cabelos poucos - dissera repetidamente ao leitor "nevermore" ("nunca mais"). Um evidente descaso ao senso estufado do porco que diz entender o livro "nas palavras do autor". O fato é que no canto da mesa redonda estava um livro aberto, em algum tom próximo do marrom, com uma das páginas manchadas de suor, abandonado, esquecido ou propositalmente largado por um leitor anônimo, cujo interior imediatamente visível grafava em tinta escura uma frase nem um pouco simples de engolir - ainda que toda [frase] seja fácil de compor. E assim era apenas:

"Leia-me como a ti for possível!"

domingo, 6 de janeiro de 2013

Desconforto - "J. & M." 03


Era impraticável... Aquele amor não poderia durar cercado de mentiras e culpa e cheio de infantis descontentamentos. Ao deitar-se na cama e olhar o corpo nu e suas mãos juntas, sabia que tudo aquilo era ótimo, embora simplesmente errado. Fumavam, agora, um cigarro, sentados na cama e calmos - com o coração palpitantemente trepidante. Tudo fora muito rápido e inconteste. Tudo fora já demasiadamente contestado por suas cabeças encostadas. Um via-se no outro como em um espelho, mas eram tão diferentes  - e já há algum tempo estavam tristes com o desfecho.

Ela já estava bem com tudo, pois seu marido aceitara o intruso que ele era... J. um intruso em sua própria cama... Descontente com sua precária fraqueza em recusar os seus corpos. Feliz, ainda assim, por já estarem há tanto tempo juntos... Ele a desejava sempre mais, mas seus olhos traíam a sua insegurança: denunciava e infligia horror. E mesmo o pássaro pousado na janela era capaz de perceber que entre aquele vapor sexual, entre a fumaça vertiginosa de seus cigarros fálicos, pairava uma nuvem de embaraço... Agora era ele quem estava na posição do "não" - mas M. nada dizia...

Eles estavam felizes por sua tristeza mútua; por suas vozes calmas e amáveis. Ele não sabia mais a razão de não querer estar com ela se tudo o que faziam era excelente... J. era um vagabundo caminhando pelo lago de sua dívida consigo mesmo. M. não entendia o que estava errado, apesar de sentir na fumaça de seu cigarro o cheiro costumeiro de um crime; o afável pressentimento de um desastre iminente. Um amor culpado! E no perfeito momento do "não" esperado por ambos para um desfecho celestial, um beijo calara o pássaro que, ao voar, deixara o preto de suas fezes no parapeito da janela. Aliás, no peito dos dois. No desgosto do desejo. Só mais um pouco... Só para sempre; existindo em um "eu te amo".

domingo, 16 de dezembro de 2012

Die Eule: Athene, Sinn und Unvernunft


Die dritte Tochter, die von Vögeln geboren würde, ist nur die elfte Tocher und nichts mehr besonders. Das ist nur eine Reflektion, die sinnlos und idiotisch ist, obwohl es sehr wichtig für allen sein muss, denn ohne dieses Lied muss man total traurig sein. Also ist das die Worter, die ich dir sagen möchte.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um sonho ero-triste: "Exit Music (For a Film)" (Radiohead)


O garoto esta novamente sozinho em sua cama. Estava tudo escuro; braços cruzados atrás de sua cabeça - em pose bastante moderada -, olhos fechados - embora ainda os abrisse vez ou outra - e a boca um pouco inquieta. Pensava nela e em seu sorriso - tímido e, às vezes, incerto, apesar de completamente sincero. Não conseguia atirar-se fora daquela imagem; de quando, já na sala, ouve os seus passos apressados e vê-la chegar totalmente ofegante, e, ao sentar-se ao seu lado, dá-lhe um beijo gostoso e carinhoso como dão os amigos. Mas não! De forma alguma, na verdade, como dão os amantes, com agonia (por querer ter-lhe o quanto antes para si, ou ter-lhe em si). Ele, é claro, volta às suas leituras - ao que lê entusiasmado para ela -, mas sem tirar-lhe do canto do olho, fica atento a qualquer movimento que possa ser suficiente para fazer-lhes tombar as testas, o rosto, a boca (enfim).

Obviamente que como memórias a coisa repetia-se o tempo todo (aquele seu balouço de corpo em sua direção e seus braços estirados dando voltas no que se chama espaço, e, contrariando a lei básica de Newton, ocupando em sintonia um mesmo lugar ao mesmo tempo). Mas o garoto ainda estirado na cama, a garota em preto e branco, e agora deitado por sobre o ombro.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pastoreio (Epimeteu, o advogado)


Às margens da ribanceira, lavada em prata escaldante, um grito agitava o gramado esquecido, calado pelo ouvido surdo de um velho advogado. Nem sempre este infeliz fora mouco, às vezes ele só fora cego, portanto apenas para ouvir capacitado. Mas, neste troca-troca trepidante, o lamuriante homem-das-leis rastejou em seus pés tortos por uma jornada sem fim, até alcançar, um dia, sua morte. Neste meio tempo, apenas meias verdades com suas quase mentiras e nada de grande e pujante. Pois só este ilustre ignorante poderia achar um fio qualquer de graça na ribanceira sem sons e nestes sem aqueles. Talvez não fosse o burocrata o culpado: o problema estava na relva, de fato. Mas quem sabe o que acontece no final? Mais um coitado, em mono-cores, lavado de cloro e de pano, vai para o tribunal.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Desembaraço - "J. & M." 02


M. não estava jogando limpo consigo própria. Ela agora estava no quarto, novamente com aquele pseudo-estranho. Já era a terceira vez que se viam. No fundo, ela já sabia que tudo aquilo tinha um inconveniente - e, justamente por isso, levantava a sua guarda como jamais fizera! Media sua presa com movimentos mansos, pesados por amargos tons de arrependimento. M. Sabia o que fazia.

Assim, M. pensara: "Há um pequeno problema no modo como eu "cumpro" este sentimento. Sim, mas é claro que eu apenas "cumpro" o sentimento; não posso deixá-lo realmente aparecer e imperar... Talvez seja mais um desses meus medos... Medo de saber com certeza o que se quer - o que eu quero. Bem, medo de revelar-me o que é e não pode não ser. Eu não sei, mais... J., J., J.! Desse jeito eu só faço com que seja impossível não pensar no caso - e, por isso, penso tanto que não chego a sair do campo da racionalidade. Embora eu tenha todos os meus medos comigo, controlo muito bem os meus sentimentos - sempre ponderando as dificuldades deles advindas."

E M. deitara-se na cama. Ao fazer isso, ainda não completamente absorta por toda a atmosfera crescente, continuou seus devaneios: "Não é como se eu estivesse na cama, deitada com um estranho. Eu já o conheço bem; mas sei que não posso sustentar esta situação - que de tão fácil, mais e mais difícil fica!" Ela o havia beijado na testa e olhava-o (fixamente) por um tempo: "como é fácil jogar com ele: homem tão debilitado por sua sensibilidade... Devo rir, talvez, pois estou deitado com uma mulher! Não... Não é bem isso... Fora justamente esta sua doçura que me fizera interessar-me por ele; e... apaixonar-me, também! Oh! Mas eu não podia pensar assim... Não posso dar o braço a torcer para tudo o que eu sinto! Eu sei bem o que eu faço! Isto eu não posso!"

Mas isto, M. já fizera. Olhava-o, agora, por mais tempo do que esperava fazê-lo - e com outra abertura para o que sentia. Tinha aquele pequeno sorriso de uma só ponta e seus olhos estavam caídos, mas sorridentes. Em um típico lampejo de confissão e culpa. Pensou, então: "Vou virar-me, na cama. Isto! Devo dormir!" E então, M. falou: "J., você quer água?" E olhava-o, agora, mais atentamente. Só queria mais uma vez ouvir a sua voz; tranquila, grave. Assim feito, mesmo antes de uma resposta, ela levantou-se (e, claro, sabia bem o que fazia). Estava nua e andava suavemente tensa. Pegou a garrafa, que ao bater no copo fez aquele característico barulho de vidro, e voltou quase dançando.

Agora era a hora de dizer algo como 'deves ir...'. Entregou-lhe a garrafa; no que ele a olhou e ela pensou: "Agora eu me condeno. Assumo minha culpa! Sei que estou feliz com este rosto, estou bem! Eu sempre soube o que fazia! Condeno-me ao prazer deste momento!"