O sono caminha distante pelo parnaso, lindo e belicoso tal qual o vento do norte para os frutos. Pedro navega sentado longe da arte, que calma e redonda obra lhe oferece o sonho. Mas seguem caminhos adversos já tarde, cujo estreito prolonga-se por mais um pouco. A cama lhe chama tão belo o nome, mas foge a vontade que lhe tem medo. É limpa e macia a fronha exposta, qual lago profundo não se aventura. Pois perde-se em medo o pequeno frágil, que é Pedro em galope e adentra a noite.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Aranha disciplinar
"Volte aqui meu amigo... Vamos conversar mais!", gritara Alberto para aquele grande charlatão que era Emanuel. Tudo acontecia em uma prisão - estilo o pan-óptico, com sua torre central - e os dois eram já há mais de duas semanas companheiros de cela. Ambos já estavam tão acostumados um com o outro que era impossível separá-los... Mas bem, eles estavam unidos pelo "olho central" e, ainda que quisessem se ver livres um do outro, seu pedido lhes seria negado pelo controle disciplinar: o seu amigo - quase único além de si mesmos (que já compartilhavam de um só corpo; corpo doutrinado) - [o seu amigo] "olho central". Aquele espectador faminto, que se expunha contorcido em volta, como uma aranha, ao alcance de tudo que sobre suas teias. Este, ao perceber o movimento e o tambor vocal do assassino em direção ao charlatão, rufara: "Números 1.531 e 1.532, preparem-se já para a inspeção!". Silêncio: mais um dia de disciplina.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Real: introdução ao desespero
Sentado na cadeira de um quarto pequeno - à sua frente um computador e ao seu lado as roupas em um varal improvisado -, B. quisera mais do que qualquer outra coisa chorar. Só isso: chorar e chorar. Lembrou-se de todas as outras vezes, entretanto, em que, no seu passado, ao ter este semelhante sentimento, prendera-o e controlara-o. Não conseguira em uma despedida e sequer em um enterro - qualquer lágrima que viera, ficara tão somente por dentro (e, ainda assim, escondida). No clube do silêncio - onde não há música e não há nada -, as suas lágrimas eram reais; mas, contidas pela força de um simulacro, sua face limpa era ainda mais.
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Bana(na)lização
Óculos estavam pendurados por todos os cantos da sala. Um na mesa de canto, outros no lustre e outros na janela; mais alguns na mesa de centro e um único caído no chão. Vários móveis estavam espalhados ali também - e quase todos ou enchiam-se de livros ou de óculos. Talvez por causa disso o ambiente cheirava mal, mas ainda era possível que fosse um prato de comida que ficara esquecido desde a última quarta-feira na escrivaninha inútil. A janela estava fechada e apenas um buraco de traça permitia um pouco de luz na sala. O raio, por sua vez, batia justamente naquelas lentes jogadas no chão; e, por conta da resina, o que era amarelado saia colorido. Uma barata observava curiosa a refração e o corpo doente daquele que havia comido jazia morto ao lado. Talvez a barata estivesse nele interessada.
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domingo, 13 de janeiro de 2013
Anátomo-grafologia
Em um canto de uma mesa redonda, aberto, porém não escancarado - se isso é possível de alguma forma, sem que mãos o segurem -, estava um livro qualquer que um anônimo leitor esquecera. Ele era marrom e pequeno: mas junto de outros livros de mesma cor [i.e., marrons] dir-se-ia que puxava para o verde, enquanto já ao lado destes, ao amarelo (fato, entretanto, que faz necessário dizê-lo marrom, ou não?). De seu tamanho, embora pequeno, nada muito importante, senão comentar sobre sua pequenez junto ao outro que lhe fazia companhia; mas maior que a mão do leitor aventurado neste texto. Aliás, quem era, afinal, esta pessoa misteriosa? deve-se pensar a princípio que isto não vem ao caso, em razão de seu anonimato; entretanto, estaria ali o livro se não fosse por ele? Estaria uma página deste antigo artefato manchada de suor se não o tivessem tocado e manuseado? E por que não dizer: existiria um livro se não houvesse quem o lesse? Nem mesmo hipoteticamente isto seria possível - enquanto fosse um livro este "livro". O que se escrevera nele, contudo, era um mistério completo: não só devido ao seu banal esquecimento, mas acima de tudo por não mais ser possível lê-lo como escrito, senão como lido. E é por isso que as resenhas sempre dizem algo tão comum... Algo evidentemente refletido na ignorância do normal... Algo tão vulgar e meticulosamente desmedido como "esta é a história de um rapaz...". Não é para menos que Poe, como um corvo - com seus olhos pretos e cabelos poucos - dissera repetidamente ao leitor "nevermore" ("nunca mais"). Um evidente descaso ao senso estufado do porco que diz entender o livro "nas palavras do autor". O fato é que no canto da mesa redonda estava um livro aberto, em algum tom próximo do marrom, com uma das páginas manchadas de suor, abandonado, esquecido ou propositalmente largado por um leitor anônimo, cujo interior imediatamente visível grafava em tinta escura uma frase nem um pouco simples de engolir - ainda que toda [frase] seja fácil de compor. E assim era apenas:
"Leia-me como a ti for possível!"
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domingo, 6 de janeiro de 2013
Desconforto - "J. & M." 03
Era impraticável... Aquele amor não poderia durar cercado de mentiras e culpa e cheio de infantis descontentamentos. Ao deitar-se na cama e olhar o corpo nu e suas mãos juntas, sabia que tudo aquilo era ótimo, embora simplesmente errado. Fumavam, agora, um cigarro, sentados na cama e calmos - com o coração palpitantemente trepidante. Tudo fora muito rápido e inconteste. Tudo fora já demasiadamente contestado por suas cabeças encostadas. Um via-se no outro como em um espelho, mas eram tão diferentes - e já há algum tempo estavam tristes com o desfecho.
Ela já estava bem com tudo, pois seu marido aceitara o intruso que ele era... J. um intruso em sua própria cama... Descontente com sua precária fraqueza em recusar os seus corpos. Feliz, ainda assim, por já estarem há tanto tempo juntos... Ele a desejava sempre mais, mas seus olhos traíam a sua insegurança: denunciava e infligia horror. E mesmo o pássaro pousado na janela era capaz de perceber que entre aquele vapor sexual, entre a fumaça vertiginosa de seus cigarros fálicos, pairava uma nuvem de embaraço... Agora era ele quem estava na posição do "não" - mas M. nada dizia...
Eles estavam felizes por sua tristeza mútua; por suas vozes calmas e amáveis. Ele não sabia mais a razão de não querer estar com ela se tudo o que faziam era excelente... J. era um vagabundo caminhando pelo lago de sua dívida consigo mesmo. M. não entendia o que estava errado, apesar de sentir na fumaça de seu cigarro o cheiro costumeiro de um crime; o afável pressentimento de um desastre iminente. Um amor culpado! E no perfeito momento do "não" esperado por ambos para um desfecho celestial, um beijo calara o pássaro que, ao voar, deixara o preto de suas fezes no parapeito da janela. Aliás, no peito dos dois. No desgosto do desejo. Só mais um pouco... Só para sempre; existindo em um "eu te amo".
domingo, 16 de dezembro de 2012
Die Eule: Athene, Sinn und Unvernunft
Die dritte Tochter, die von Vögeln geboren würde, ist nur die elfte Tocher und nichts mehr besonders. Das ist nur eine Reflektion, die sinnlos und idiotisch ist, obwohl es sehr wichtig für allen sein muss, denn ohne dieses Lied muss man total traurig sein. Also ist das die Worter, die ich dir sagen möchte.
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...For the worms...,
Bruno Hinrichsen
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Um sonho ero-triste: "Exit Music (For a Film)" (Radiohead)
O garoto esta novamente sozinho em sua cama. Estava tudo escuro; braços cruzados atrás de sua cabeça - em pose bastante moderada -, olhos fechados - embora ainda os abrisse vez ou outra - e a boca um pouco inquieta. Pensava nela e em seu sorriso - tímido e, às vezes, incerto, apesar de completamente sincero. Não conseguia atirar-se fora daquela imagem; de quando, já na sala, ouve os seus passos apressados e vê-la chegar totalmente ofegante, e, ao sentar-se ao seu lado, dá-lhe um beijo gostoso e carinhoso como dão os amigos. Mas não! De forma alguma, na verdade, como dão os amantes, com agonia (por querer ter-lhe o quanto antes para si, ou ter-lhe em si). Ele, é claro, volta às suas leituras - ao que lê entusiasmado para ela -, mas sem tirar-lhe do canto do olho, fica atento a qualquer movimento que possa ser suficiente para fazer-lhes tombar as testas, o rosto, a boca (enfim).
Obviamente que como memórias a coisa repetia-se o tempo todo (aquele seu balouço de corpo em sua direção e seus braços estirados dando voltas no que se chama espaço, e, contrariando a lei básica de Newton, ocupando em sintonia um mesmo lugar ao mesmo tempo). Mas o garoto ainda estirado na cama, a garota em preto e branco, e agora deitado por sobre o ombro.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Pastoreio (Epimeteu, o advogado)
Às margens da ribanceira, lavada em prata escaldante, um grito agitava o gramado esquecido, calado pelo ouvido surdo de um velho advogado. Nem sempre este infeliz fora mouco, às vezes ele só fora cego, portanto apenas para ouvir capacitado. Mas, neste troca-troca trepidante, o lamuriante homem-das-leis rastejou em seus pés tortos por uma jornada sem fim, até alcançar, um dia, sua morte. Neste meio tempo, apenas meias verdades com suas quase mentiras e nada de grande e pujante. Pois só este ilustre ignorante poderia achar um fio qualquer de graça na ribanceira sem sons e nestes sem aqueles. Talvez não fosse o burocrata o culpado: o problema estava na relva, de fato. Mas quem sabe o que acontece no final? Mais um coitado, em mono-cores, lavado de cloro e de pano, vai para o tribunal.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Desembaraço - "J. & M." 02
M. não estava jogando limpo consigo própria. Ela agora estava no quarto, novamente com aquele pseudo-estranho. Já era a terceira vez que se viam. No fundo, ela já sabia que tudo aquilo tinha um inconveniente - e, justamente por isso, levantava a sua guarda como jamais fizera! Media sua presa com movimentos mansos, pesados por amargos tons de arrependimento. M. Sabia o que fazia.
Assim, M. pensara: "Há um pequeno problema no modo como eu "cumpro" este sentimento. Sim, mas é claro que eu apenas "cumpro" o sentimento; não posso deixá-lo realmente aparecer e imperar... Talvez seja mais um desses meus medos... Medo de saber com certeza o que se quer - o que eu quero. Bem, medo de revelar-me o que é e não pode não ser. Eu não sei, mais... J., J., J.! Desse jeito eu só faço com que seja impossível não pensar no caso - e, por isso, penso tanto que não chego a sair do campo da racionalidade. Embora eu tenha todos os meus medos comigo, controlo muito bem os meus sentimentos - sempre ponderando as dificuldades deles advindas."
E M. deitara-se na cama. Ao fazer isso, ainda não completamente absorta por toda a atmosfera crescente, continuou seus devaneios: "Não é como se eu estivesse na cama, deitada com um estranho. Eu já o conheço bem; mas sei que não posso sustentar esta situação - que de tão fácil, mais e mais difícil fica!" Ela o havia beijado na testa e olhava-o (fixamente) por um tempo: "como é fácil jogar com ele: homem tão debilitado por sua sensibilidade... Devo rir, talvez, pois estou deitado com uma mulher! Não... Não é bem isso... Fora justamente esta sua doçura que me fizera interessar-me por ele; e... apaixonar-me, também! Oh! Mas eu não podia pensar assim... Não posso dar o braço a torcer para tudo o que eu sinto! Eu sei bem o que eu faço! Isto eu não posso!"
Mas isto, M. já fizera. Olhava-o, agora, por mais tempo do que esperava fazê-lo - e com outra abertura para o que sentia. Tinha aquele pequeno sorriso de uma só ponta e seus olhos estavam caídos, mas sorridentes. Em um típico lampejo de confissão e culpa. Pensou, então: "Vou virar-me, na cama. Isto! Devo dormir!" E então, M. falou: "J., você quer água?" E olhava-o, agora, mais atentamente. Só queria mais uma vez ouvir a sua voz; tranquila, grave. Assim feito, mesmo antes de uma resposta, ela levantou-se (e, claro, sabia bem o que fazia). Estava nua e andava suavemente tensa. Pegou a garrafa, que ao bater no copo fez aquele característico barulho de vidro, e voltou quase dançando.
Agora era a hora de dizer algo como 'deves ir...'. Entregou-lhe a garrafa; no que ele a olhou e ela pensou: "Agora eu me condeno. Assumo minha culpa! Sei que estou feliz com este rosto, estou bem! Eu sempre soube o que fazia! Condeno-me ao prazer deste momento!"
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