terça-feira, 1 de março de 2011

Dáimon - O Folhetim 06



Mas Laércio nunca acordara de seus transtornos! Ria-se como demagogo e deleitava-se em carmim... Pobre coitado, não passa de uma mente perturbada: isso ele queria pensar, isso o justificava! § Lembrara-se em vários momentos das suas brigas com aquele grande amigo, aquele de quem se afastou por fraqueza. Mas tinha que ser assim... Era o que no fundo queriam seus antigos demônios; ele tornou-se seu próprio dáimon[1]. Seus antigos diziam: "Levante a mão pra orar, menino! É assim que deve ser". Foi assim que se afastou de seu amigo – e de todos os outros. Por força das contingências agarrou-se ao eu.  Afastou-se do amigo... Vá desobedecer aos anseios do ontem-amanhã! § Foi assim que de um passo errado começou toda sua história: agonia, constipação, melancolia e morte: tudo mentira! Isso era fruto de um não seu, de um não si, de tudo a devir. Na verdade prendera-se em ilusões para projetar-se no tempo como fantasma de sua imagem: mero espelho, invertendo e subvertendo. § Instaurou-se então a impaciência. Por que impaciente? Talvez não real; máscara de sua máscara, prospectos de sua introspecção, filho de seus medos... Foi assim Laércio por muito tempo, crescido e criado à imagem e semelhança de um batráquio. Vivia reprimido ao ocaso! Quando será que se deixará ao belo? \


[1] Do grego δαίμων. Significa espírito, divindade. Na mitologia seriam entes divinos dotados de afetos condizentes à sua essência.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Vorname - uma visão ameríndia de Anaximandro




Ouçam as vozes mutiladas! Chamem, clamem, berrem, urrem! Já não é sem tempo! Tragam a flor, a linda dor, o ferimento da chaga a provar! Sou povo sem rosto, danço de lá! Meu nome é ninguém - nulisseu - e sou homem, forte e destemido! Resguardo em meu peito a marca das gentes; a tradição!

À vida vim do nada e para lá devo voltar: ao ápeiron, a totalidade da justiça equilibrada da natureza! minha canoa, no rio da morte, é de palha; é feita para afundar. Meu fumo é meu amigo, ainda que não saiba fumar. Esse é meu lugar, junto à essência de tudo, ao infinito incorruptível. Devo respeitá-lo. Danço em meu assombro.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dez palavras pela meia noite.


É difícil encontrar alguém que não pense em ser melhor todos os dias. Claro, não pretendo tomar isto como uma regra geral, longe de mim. Vai ver, na realidade, eu é que sou assim e me acostumei a conviver com pessoas, que por um acaso também o são. Ainda assim, se eu tomo por certo que uma parte vive dessa forma, eu poderia dizer: a pior fase da vida de um homem - depois de ter-se habituado a pensar ter um tal grau de excelência - é ter de repensar essa sua "perfeição". Como é banal pensar que o problema é o fiapinho de poeira no ombro esquerdo do outro. Como é fácil apontá-lo. Acha-se até que ao se demonstrar as armadilhas que os outros caem, pelo simples fato de as perceber, está-se, também, evitando-as para si: não existe maior erro, eu penso. Mas que decepção! que decepção, de fato...

As máscaras parecem ser uma realidade. Vista sua capa, rapaz; entre para o time: nós precisamos de você conosco. Este é o grande e proliferante time dos fracassados (assim como eu, vós, tu e você). Que grande engano é pensar que ao varrer um sentimento para baixo do tapete e esperá-lo dissipar, estar-se-ia a fugir deles. Até talvez esteja: quem sou eu para dizer?! Só posso falar sobre o que me atém, nada mais. Não quero plantar o universal, pois não sou todos vocês, não é? A questão toda é: do que adianta apressar os passos se em algum momento o cansaço e o medo chegarão? É aí que se realizará a maior dominação de todas: a de si sobre si. Não é para menos que é tão engraçado pensar que todos os seus complexos aportarão com a maior violência jamais vista e de uma só vez naquele instante (eternizado) que é a crise.

Venha amigo, caminhe comigo, falam os traumas d'outrora. Caminhe, não se acanhe; não me abandone. Siga, siga, dance comigo, dance pra mim. Essa é a hora de mostrar os seus passos de artista; artista da fome, em busca de atenção: acreditando ter um sentido maior em si e nos outros. Se hoje acordei com as pernas pesadas, inchadas e moribundas é porque, como só havia de ser, estou infatigavelmente fatigado. Eis a crise. Eis a crise. Eis a crise. Diz seu ego a si: coloca um sorriso nessa cara, faça isso por mim e vamos resolver tudo juntos: eu converso com teus problemas e tu conversas comigo, mas não vás tratar diretamente com eles, pois não queres tu, agora, se machucar, não é? deixa pra depois. Que venha tudo de novo, em outra hora, outro tempo, em outro eu, tu, quem quer que seja... Se o corpo é o lugar das trocas celulares e dos movimentos metabólicos, a mente é o lugar das ruínas. Ri.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

às margens de um profano: uma visão do direito



Eu sempre me impressiono com Henri Robert[1]. Parece que foi ontem que li o seu Les Grands Procès de l’histoire – quando na verdade já tem mais de um ano (mas o que é o tempo para as grandes obras?). Para ser sincero, o meu primeiro aperto de mão com esse Senhor não foi dos mais afáveis: encarei-o com a estranheza necessária ao desgosto. Pois bem, que contra-senso! Como poderia eu pensar que um advogado poderia me impressionar tanto com um saber literato? Nele não vem só o superficial toque da garra-lei.

Quando venho pegando esses infindavelmente incassáveis diários da monotonia que são os livros de doutrina (aquele momento dogmático é – e ainda bem que o é – momentâneo; encerra-se no instante do momentum) para poder me aprofundar em conceitos que nunca são mais do que obviedades silogísticas, não vejo escapatória:

-Bruno: Amigo, por favor, traz-me um banco.
-Amigo: Para quê?
-Bruno: É porque eu já tenho a corda, o prego e o martelo: vou preparar meu cadafalso.
-Amigo: Ah! Não tem problema, com prontidão! Creio seja para fugir do morto e sem cor, não?!

É na contramão de toda essa corja de autores-repetidores, “parafernálios” da cópia e da venda[2] que está o tipo de Henri Robert. Viva o jurista além da régua, do codex e do cadeado. O direito, aliás, não é religião para aceitarmos tanta languidez. Dê-se paixão a cada movimento.


[1] Advogado francês (1863-1936)
[2] Schopenhauer (O Ofício do escritor) critica ferozmente o escritor que visa o lucro.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Tirania da praticidade


Da tirania da praticidade.

Desperto. Metálico lembrete sonoro do movimento temporal.
Erguer-se sob um morno horizonte, contemplativo:
(Re)Começa tudo.
Desperdício?
Pueril instinto, que o honrava com alguns momentos de misericórdia,
a si mesmo no leito; relutante.  Vozes que outrora diriam:
Mais um tanto, e a face em nirvana - aguarde!
Não mais. (Possui regimentos e estatutos belicosos).

Indeciso? Nos refinamentos. Vide: Escolhas tropegas
Parece mais prático banhar-se; a água facilita a circulação.
(In)consequente estímulo às sinapses.
Daí, para a ração...Basta seguir o tom do comum.
Ao rufar de uma marcha de Mahler.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

§ 1 - Contingência Corporation


Os espaços mundanos são a regra. Não gostaria que assim fosse, mas que posso eu, reles ser subjulgante/subjulgado, ante as inovações da tekhné? Aliás, a prâxis a exige, essa inovação. Há muito essa já é a vontade dos homens: desenvolver a técnica perfeita, artisticamente incomparável, irredutível. Não há como fugir disso, senão nos fins das coisas, ou no fim dos tempos, ou qualquer(s) que seja o fim(s).

Escrevo hoje este texto em um teclado, de um computador relativamente novo (3 anos e meio). Ele já está demasiadamente ultrapassado ou levemente gasto. Os avanços, ao passo que se perfazem, se atrasam. O novo já não é mais novo no espaço de um segundo e o conceito de bom é vinculado ao novo e não ao ótimo. Na empresa que se chama empreendimento-do-novo-melhor-que-antes, não há espaço para o temporalmente superior.

Escrevia e continuo escrevendo neste velho amigo, nem tão velho assim; mas o que importa é que ainda tenho comigo velhos amigos, já bem mais velhos do que eu imagino que sim: uma máquina de escrever Olympia SR De luxe e uma caneta Parker "51". Para dizer a verdade, essas relíquias são bens preciosíssimos, pois eternizaram-se: de tempos outros chegaram a mim.  E sendo bem sincero, como o cheiro do antigo é gostoso. Agora é só a supressão dos sentidos: falta-me um pedaço do fim.

O mito da pós-modernidade é engrandecido: antes o novo ao bom. Em resposta a isso chamar-me-ão antiquado.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

"Ai, que preguiça..."


Dentre uma das qualidades do tour-ista uma se destaca acima de todas as outras: ver com os olhos de um desbravador aquilo que cotidianamente parece banal; claro, há um porém: e os homens-fotográficos? bem, estes são turistas, e devem ser encarcerados entre os assassinos da "abertura ao mundo". O fato é: não se percebe, no dia-a-dia e no corre-corre, o quanto é importante conhecer suas origens. Eu quero Canudos, Cabanada! dai-me o pé de cada dia, salve, salve, um pouco de calos e rugas; enraiza-me! Feliz é a Fulozinha de nossas gentes, os Papangus e Papa-Figos! Cansei de ser mais uma noite de inverno: agora é folk-lore. Livra-me desse conchego, mainha... Dai-me (apenas) a "preguiça" do Andrade, o Mario amigo. Sejamos loucos juntos e tragamos um pouco de lucidez aos outros... Afinal, existe algo mais errado do que o certo?! O avanço mais me parece um retrocesso; o retrocesso, o avanço. Pois é, cumpade, meu Padim Ciço nunca me disse que para ser gente graúda eu tinha que me afastar de mim. Própria, vida própria...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mil Leguas Intrasubjuntivas


A minha avó fora uma pessoa de grande cultura. Quando eu tive o prazer de conhecê-la, ela já era idosa, mas não demais. Lembro das inúmeras vezes em que sentara naquele tão gostoso sofá, já um pouco mofado, como todas as suas coisas mais amáveis. Lembro de quantas vezes fui obrigado por mim e por ela a ler a Bíblia, o Tesouro da juventude (em seus mais variados e empoleirados volumes), as viagens de guliver, as mil leguas submarinas. Não existiu momento melhor para aprender o que era bom, ruim e indefinível. As mais elegantes estórias eram alcançadas naquele delicioso sofá velho, na caminha colocada ao lado de sua enorme cama king size, aonde meu avô lia o seu livrinho e, logo antes de dormir, rezávamos porque o Papai que está nos Céus iria nos velar por mais uma ótima noite de sono e uma venturosa manhã seguinte.

Na casa dela não havia espaço para o que não fosse perfeito. era tudo uma mistura de misticismo com santidade. Era o belo no velho. Eu amava. Amava minha avó e meu avô. Amo ainda suas memórias, agora que jazem em seus túmulos aquele tão especial pó da lembrança. Era ótimo ouvir Bach, Chopin, Mozart, Pergolesi e companhia em seu caríssimo e importado piano branco. Acho que era alemão ou austríaco, apesar de hoje já não fazer diferença. O piano está perdido, salvo por caríssimas recordações de nossas viagens pelo bucólico Dó e Lá de suas notas, quando dos meus primos queridos ao meu lado. A nota mais grossa era sempre a minha melhor amiga. A rigidez... também.

Com ela eu aprendi a valorizar o belo. Um curso intensivo de estética! (risos). Se existiu um príncipe iluminista, não devo ter ficado muito longe de toda sua polidez e etiqueta. Mais importante, aquela velhinha querida ensinou-me um grande advento: comei, depois levantai. Junto com meus pais, que dos melhores sempre foram, aprendi a dar valor às coisas. Sopram os ventos da felicidade e deixam este querido e divertido perfume no ar: nostalgia. Claro, sem arrependimentos e sem obsessão. Não há de se viver do passado, mas como é gostoso sentir seu gosto na pontinha da língua.

Foi com vovó que aprendi as melodias, os versos e as fábulas. O dicionário virou grande companheiro. Já mais velho falam-me o quanto lembro o seu pai, meu bisavô. Sei bem que é e não é verdade. Já neste começo de ano tive uma grande oportunidade de rever esses meus sentimentos, de trazer a tona essas memórias, gostosas e quentinhas. As Fábulas de Esopo foram meu grande portal. Como hoje é tudo diferente. Acabou-se, ou no mínimo alterou-se, aquela ética toda, se tão rígida, se bem trabalhada na família, tão salutar. Vovó ensinara-me uma grande lição: não reclame, mude, aja. Foi isso que eu vi no livro desse grego.[1] Isso, por alguma razão desconhecida, e como que por ligação direta em um carro, quando os dois fios são tocados e despertam algo muito maior (o carro), fez-me lembrar que o importante é o sentimento. E como dele eu estava afastado.


[1]"A Boy Bathing": A boy bathing in a river was in danger of being drowned. He called out to a traveller, passing by, for help. The traveller, instead of holding out a helping hand, sttod by unconcernedly, and scolded the boy for his imprudence. "Oh, sir!" cried the youth, "pray help me now, and scold me afterwards".
Counsel, without help, is useless.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pombos


O encantamento pelas palavras é o motor da obscuridade. É a causa da hierarquia e a desventura do ignorante. Acham-se lindos (seriam pombos: inflados e deformados?) estes tão obstinados ao conhecimento; são exímios Narcisos. Vangloriam-se do não o entenderem. Constroem os primeiros degraus e riem de como as formiguinhas necessitam da escada inteira. Viva! Viva!! Palmas para aquele que olha de cima! Um dia, tal qual seu maior servo, será parte do solo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cansar


(1) Pensar cansa, (2) e eu já cansei de pensar quanto cansa o pensar.

(3) Amar cansa, (4) E eu já não cansei de repetir o amar.

(5) Passa vento, passa-tempo, (6) cansam-se os nódulos de um coqueiro.