segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A burca e os direitos humanos (ou البرقع وحقوق الإنسان)


A torre de Babel (Pieter Brueghel, o velho)
O que era chamado de norma de justiça passou a ser definido como direitos humanos, mas, parafraseando Kelsen, pois me parece interessante notar que uma norma de justiça tem valor relativo, ela [a norma de justiça] é vazia de conteúdo na relação a priori, sendo constituída de sentido apenas pelo enunciado que pode ser aplicado a qualquer conteúdo. Assim, os direitos humanos, da maneira como são postos, são única e exclusivamente aquilo que alguém ou alguns, pela posição que mantém na sociedade internacional, ou melhor, nas instituições da sociedade internacional (e disso eu puxo Foucault), condiciona como verdade absoluta. E é interessante como o discurso dos direitos humanos tem um ar de naturalismo ("são os direitos que alguém tem apenas por ser humano..."), muito embora, justamente por ser humano – e me parece que Levinas é apropriado para essa discussão – a finitude do Eu é incapaz de compreender a infinitude do outro; daí não ser possível estabelecer como universal o que deveria ser compreendido dentro do rol do conteúdo definível desta norma de justiça que chamamos "direitos humanos". E mais, os direitos humanos entram como uma norma de justiça na qual se inscreve: "todos devem agir de acordo com as sub-normas de justiça elencadas pela sociedade internacional, de forma que seu agir se enquadre dentro de uma proposição universal, pois os direitos humanos são universais"...

Diante disto, pergunto a todos como fica a proibição do uso da burca na França... Onde está esse tal de universal?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Eu... dão-me vanidade!



Dei-me, dão-me vanidade. Eu dão-me vanidade; eles dei-me vanidade. O expressionismo um dia notou, a flor da menina é a curiosidade do Golem; e Nosferatu viu que a luz é o bem de sua poeira. Eu dei-me vanidade... Eu, dão-me vanidade a mim. Felix disse à sua bolsa, amarela e preta, preta e amarela: "dê-me o que preciso!" "careço vanidade", pensou o gatinho preto... O bem da bolsa era tornar-se vazia. O pó dos móveis cobre tudo o mais, e deixa tudo o mais perplexo diante da limpeza que chega – avassaladora, rápida –, mas, logo a partícula retorna (e, se não for a mesma, outra). Por isso que um quarto branco compõe melhor com o mundo, principalmente um quarto sem móveis e, preferencialmente, sem luz (mas, sendo assim, já que não tem lume, não poderia ser de qualquer outra cor? Não, pois um dia poderá bater o sol...), para que possa restar a limpeza de uma aparência: vão no vão. Vanidade sem limites, neste quartinho... Sou eu o único móvel, o único a contemplar. A vida em contemplação: dei-me vanidade.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Uma noção de Governança

Na verdade isto é mais uma tradução que qualquer coisa.
Me interessei por este tablete fenício do Museu do Pergamon , em Berlim.
Testamento de Kilamuwa, Rei Fenício, cerca de 825 A.C.




"Eu sou Kilamuwa, Filho de Hayya, Gabbar reinou sobre Y'DY e nada fez; depois dele veio Bamah, que do mesmo modo, nada fez. Então reinou meu próprio pai Hayya, mas ele também foi inábil. Em seu turno, reinou meu irmão Soil, que também em nada agiu. Entretanto, eu, Kilamuwa, Prole de Tamel, o que fiz, jamais fora feito pelos meus antepassados.

A casa do meu pai estava cercada de reis poderosos, e cada um deles estendeu as suas mãos  para guerrear. Eu estive nas mãos dos reis como um fogo, queimei as suas barbas , e como um fogo, devorei as suas mãos. O Rei dos Danaos fora sobrepujante, mas contra ele me utilizei da ajuda do Rei da Assíria:

Naquela época uma jovem mulher era oferecida no mercado pelo preço de uma ovelha, um homem, pelo preço de uma vestimenta.

Eu Kilamuwa, filho de Hayya, sento no trono do meu pai. Sob os reis que me antecederam, foram os Muscabinos tratados como cães, mas para eles fui um pai, uma mãe e um irmão.

Aquele que jamais sequer vira uma ovelha, o fiz senhor de um rebanho. Para quem nunca outrora vira um touro, o fiz senhor de uma junta. Dei riquezas para quem nunca possuira prata ou ouro.  Para aqueles que desde a infância não trajaram linho, eu os vesti em meus próprios tecidos de Byssus dos pés à cabeça.

Eu peguei o povo pela mão, e do fundo de suas almas, me fitaram como filhos à uma mãe.

Qualquer um dos meus filhos que venha a me suceder, e que por ventura destrua essa inscrição, que ele seja desonrado entre o povo. E se suceder de alguém causar dano às minhas letras, que o Deus de Gabbar, Ba'al-Samad esmague o seu crânio, E que o Deus de Bamah, Ba'al Hammon, destrua a sua cabeça."


Berlin, Pergamonmuseum, Stele des Königs Kilamuwa aus der Burg von Samal, Zincirli, Türkei (Stele of King Kilamuwa from the castle of Samal, Zincirli, Turkey)

sábado, 26 de novembro de 2011

Sileno diz: "cari amici"



Houvera um homem e seu poderoso membro. Senhor nojento; repugnante, de fato... Grande balofo e estúpido putrefato. Olhara para os lados de sua imensa barriga em pão. Lançara mão de sua vista grogue e de seus símios dedos, para um primeiro contato com o seu projétil, agora em ação. Pegara-o com certa familiaridade, embora tão raro o tocasse. Fétido, este senhor leitão: rosa sua pele, mas acre o cheiro que lhe era comum, odor de cão. Imagens à mente, olhos no chão: moças, belas e muitas, agarrando-o pelo varão. Mal soubera este moço doente, tão vivo quanto agora, mais morto que um garrote à mesa – e isto quebra o chavão –, que seu pequeno pacote, com um banho, melhor serviria. Mas pouco importara à época ao homem, perdido em seus apetites de besta, lavar seu amigo; e isto, ressalte-se, caro custou-lhe, pois o perdeu a uma pequena ferida, e como há de ser aos sujos no leito, grande infecção. – – Assim falou-me Dionísio.

domingo, 20 de novembro de 2011

(Chronos) Contrapunctus I - O Folhetim 08


Laércio parara à janela, olhara todo o esplendor de um pôr-do-sol – ou de um movimento contrário: pôr-se rotacional da terra em relação à aparente estaticidade do astro-luz – parara e olhara... E contemplara a si – ser sozinho – em tristeza esplêndida. Quase um segundo sol, forçando um pôr-se dentro de fora de si. Laércio em verso esplêndido? Só uma jocosidade! A sua Laetitia logo a frente em um simplificar das coisas – tão distante... Memórias dela – mas que palavra recorrente! § Na verdade memória de algo de reminiscente em sua alma, uma verdade construída para habitarem os seus dáimons: brincarem e pularem e grunhirem. E a isto ele chamara afetos; sentimentos. Mas algo destes afetos lhe escapava, como no homem potencialmente fraco de Spinoza[1]; algo lhe alcançava o intelecto e lhe fazia permanecer ocaso... Pôr-se do pôr-do-sol do dentro de dentro ao de fora. Mas não é fora para as relações, transações e conversações: são dois Laércios em regozijo: e nada dos benéficos sortilégios de outrora. Um danado, batráquio! § Quanto aos amigos, uma grande pergunta a se formar: “onde estão?”. E Barnabás sorri-lhe um lindo espelhar de dentes vociferantes: “não!” – e compadece-se de si – e não sai disto... De “se... e se” fica Laércio preso em uma encruzilhada, dar tempo ao tempo ou tomar-lhe o tempo que é só seu; ou ainda – e já resolvendo o caminho, do duplo ao múltiplo (talvez melhor que não se resolvesse nada!) –, deixar de habitar no tempo? Isto: ou alvo do tempo contra o relógio da pseudo produção – e seu ocaso; ou maquinação no tempo de seu vir a si com os outros em maquil-ação. § Nada, nada ainda se respondera, Laércio: uma coisa é deixar de visitar a casa de sua juventude, outra é deixar de habitar nas suas lembranças, pois, pensara, não pode haver aquele que esquece – pelo menos não propriamente. \



[1] Spinoza, Baruch. Ética.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Casa de Espelhos



Na casa de espelhos falou-se da ocorrência de algo.
Um disse que houve, outro que nada passara : Aquele disse que vivera, outro que morrera e alguém matara.

Um ouviu falar
Aquele soube que falaram
Um sabe o que houve
Alguém tinha certeza
Outro presenciou
Alguns acreditaram.
Aquele perdeu
Um manipulou
Alguém lucrou.

Houve protestos - As versões entraram num mesmo balde, as tintas se misturaram,e escorreram contos difusos em degradé.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Jabberwocky



 Para o positivismo, o uso dos símbolos numa situação real é que confere significado a uma norma, pois a maioria da letra do legislador é geralmente aberta a interpretação, não existindo assim uma fórmula interpretativa intrínseca ao próprio texto normativo.
Após a criação da sua teoria pura do Direito, Kelsen foi desafiado a criar uma teoria para a interpretação, que até hoje é um dos pontos mais complexos da teoria positivista Kelseniana. Como justificar um método de interpretação? Visto que para Kelsen, em sua primeira edição, o Direito era aquilo que estava positivado, e a norma poderia e deveria ser isenta de valorações zetéticas, como tanto é repetido nas aulas de introdução ao Direito, ele postulava que a norma jurídica tiraria seu poder vinculante da autoridade legislativa e aplicadora do Direito, e não de pressupostos naturalistas como até então era disseminado.
Muitos dos que analisaram a Teoria Pura do Direito, colocam um enfoque escapista nos métodos de interpretação propostos pelo austríaco. Talvez tenha sido mesmo escapista, mas venho a crer que não era somente uma escapatória, mas sim uma parte inalienável do sistema proposto por ele, e a única solução passível de concordância com o resto da Teoria Pura, dado que qualquer análise, mesmo que vaga possa constatar que talvez a teoria da interpretação seja o ponto chave de todo o sistema legalista Kelseniano.
A influência norte-americana é perceptível na sua tendência a localizar a interpretação num enfoque de competência operadora, e não doutrinária; se para tal teoria o direito surge da norma positivada, não estaria propondo o alicerce para a posição de poder do operador do direito?
O legislador imprime sua vontade no texto normativo, mas as palavras cedem obrigatoriamente espaço para uma interpretação, pois todo processo lingüístico é um processo intersubjetivo, é uma troca, do enunciado para a compreensão de quem interpreta.
Com isso, nasce a idéia da necessidade de existência de uma interpretação autêntica, de uma fictícia “interpretação verdadeira”, de achar a verdade escondida no texto legal. A própria noção de ordem jurídica exige o pressuposto da segurança jurídica, portanto, para o direito positivo, alguma autoridade competente deve criar o direito com uma interpretação.
Toda interpretação é um processo de doação de significados, todo aquele que interpreta algo o compreende de maneira diferente, existindo aí vários modos de interpretação, mas de grosso modo, só nos interessa diferenciar a interpretação não-autêntica da interpretação autêntica do órgão competente no ato da aplicação do direito.
Proponho-me a colocar a temática da interpretação jurídica Kelseniana de uma forma comparada utilizando de analogias literárias, munido de extratos de Lewis Carrol (Through the Looking Glass) e de Cervantes (Don Quixote),com o objetivo, de apontar as relações entre as teorias da interpretação autêntica e não-autêntica a algumas teorias da interpretação literária segundo o meu ver.
No início do livro – Alice Através do Espelho há um poema escrito com uma métrica anglo-saxã perfeita, mas com palavras ora em portmanteau, ora em nonsense, ou seja, de palavras inventadas através da síntese de uma ou mais palavras para formar uma nova, ou de palavras de criação arbitrária por parte do autor. Alice, ao ler o poema, se sente segura que ele quer dizer algo, mas não consegue interpretá-lo com segurança, pois não possuía nenhum método de interpretação válido ou ferramentas para fazê-lo, até encontrar o personagem de Humpty Dumpty, que é a voz do órgão judiciário competente para a interpretação, ele analisa a primeira estrofe do poema Jabberwocky: 

“Twas Brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe”

            Antes de analisar a estrofe, Alice o pergunta – “Será que você pode fazer as palavras significar tantas coisas diferentes?
            Ao que Humpty Dumpty responde – “A pergunta é, quem é o mestre? - Isso é o mais importante”.  E diz ainda – “Quando utilizo uma palavra, ela deve significar exatamente o que eu quero que ela signifique, não mais, e não menos.”

            O órgão legislador é o autor, que cria o poema, e as regras de interpretação, mas ele não cria interpretações corretas por si só, precisou autorizar Humpty Dumpty a dar significados específicos às palavras chaves, como quando diz que slithy seria a junção de slimy e lithe , e diz ainda mais; que lithe nesse caso, significaria ativo, não lentidão, que são os dois significados possíveis de lithe, do latim lentus ou do termo em inglês antigo lîthe (gentil, gracioso, atlético).
            A interpretação de Alice no começo do livro era não-autêntica, pois mesmo que entendesse que se tratava de um poema, e conseguisse encontrar um sistema, não conseguia encontrar nenhuma jurisprudência para legitimar a sua interpretação.  Lewis Carrol, como o legislador do texto, dá autoridade quase que constitucional para o personagem, cujas chaves lingüísticas até hoje são utilizadas por tradutores do poema para uma tradução mais precisa. Nenhuma tradução pode ser dita legítima, pois não é concordante com os jogos de palavras em língua inglesa do original, colocados no espírito do texto.
            Ao dizer que a palavra significa o que o mestre quiser, Humpty Dumpty, antecede a Kelsen na idéia da possibilidade de existência de chaves de interpretação, propostas pelo legislativo, que autorize um poder judiciário, ou operador do direito, a criar uma nova interpretação com a aplicação do Direito na vida real.
            A transfusão do poder das mãos do órgão legislador para as mãos do operador do direito é como o uso da linguagem. Lewis Carrol, em cartas sobre a temática da interpretação do seu poema deixou claro que era também sua intenção que houvesse um espaço livre para a interpretação do leitor, na medida em que ele não especificou o significado de todos os termos inventados, e mesmo que existam ilustrações, filmes, e obras derivadas do Jabberwocky, nenhuma pode pressupor ser a verdadeira, todas possuem igual espaço para diferentes interpretações, que como dito por Kelsen, toda lei precisa de um espaço para ser interpretada, senão o ordenamento jurídico seria uma besta imutável, e logo se comportaria como uma irrealidade não compatível com a vida social, que é inconstante e mutável.
            A interpretação dos apreciadores da obra é comparável a interpretação científica, que é um processo cognoscitivo - Pode entender o funcionamento e o sentido das normas gerais, mas não cria a interpretação correta. Para a teoria pura, o ato da análise por parte dos apreciadores que não órgãos operadores, só pode “estabelecer as possíveis significações de uma norma jurídica. Kelsen não acredita que a interpretação jurídica em momento algum seja só uma questão de conhecimento do ordenamento jurídico pré-existente , mas sim uma questão de política, em seu sentido quase maquiavélico, de que o “príncipe deva fazer tudo aquilo que se encontre em seu poder para manter-se no poder e para beneficiar o seu reinado”. Aí o caráter voluntário político é mais forte que o do saber científico, ele reconhece que o poder de criar direito não vem da norma escrita em si, mas de que fala o operador sobre a norma, acerca do espaço interpretativo deixado pela própria letra normativa.
Sobre a hierarquia das normas, ponto encontrado tanto no referente a relativa indeterminação do ato de aplicação do direito, e da indeterminação intencional do ato de aplicação do Direito, volto a alusão a obras literárias como fontes de exemplificação teórica.
A parte introdutória do livro El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha possui alguns poemas em décimas, de caráter humorístico, que eram chamados de décimas de cabo roto; consistiam em versos que suprimiam as sílabas finais depois da silaba tônica de cada ultima palavra, como em:

“ De um noble hidalgo manche-               No indiscretos hieroglí-
contarás las aventu-,                                  estampes em el escu-,
a quien ociosas lectu-                                 que,cuando es todo figu-,
transtornaron La cabe-;                             com ruines puntos se envi-.       
damas,armas,caballe-,                               Si em la direccíon te humi-,
Le provocaron de mo-                             no dirá mofante algu-:
Que,cual Orlando furio-,                       <<!Qué Don Álvaro de Lu-,
templado a lo enamorado-                         qué Anibal el de Carta-,
alcanzó a fuerza de bra-                            qué rey Francisco em Espa-
a Dulcinea del Tobo-. “                            se queja  de la fortu-! >>.

(primeira parte, preliminares)
A determinação do significado de cada verso, necessita de um conhecimento prévio das palavras, como manchego, aventuras, lecturas, cabeza , caballeros etc. Além desse nível cognitivo, ainda há um nível de determinação pré-existente, que é a condição de conhecer as obras as quais o autor se refere, como damas, armas, caballeros, que é retirado do prólogo de Orlando Furioso de Ludovico Ariosto. A composição e compreensão do caráter cômico de Don Quijote só se tornam cômica se forem levadas em consideração as suas origens como um reflexo humorístico da literatura medieval da cavalaria andante, e dos heróis superexaltados e perfeitos, que serviram de base para toda a sátira presente na obra de Cervantes.
            É o chamado - Círculo Hermenêutico, onde cada nível de interpretação necessita de uma compreensão pré-existente, e antes dela uma pré-compreensão, e assim por diante. 1111111
                Coloco ai a relação da indeterminação como – O conhecimento anterior das obras mencionadas permite a emolduramento, ou vinculação do sentido geral das décimas.
O sentido adotado pelos interpretes é de que – Num jogo de cartas da época, as figuras (soldado, cavalo e rei), tinham pouco valor (ruins pontos), e quando se aposta com elas (se endivida), é fácil perder a partida, se na dedicatória te mostras humilde ( te humilhas), nenhum malfeitor poderá dizer que acabarás como as grandes figuras históricas citadas, que acabaram em desgraça ( decapitação, suicídio, prisão etc.)
Faz-se necessário então, primeiro conhecer as obras mencionadas, para completar as estrofes, e só a partir daí, é que se pode começar a achar os espaços de interpretação propostos pelos enunciados, o lado não intencional da interpretação, é o enquadramento dos termos lingüísticos em todas as suas apreciações possíveis pela parte do leitor, é impossível que duas pessoas ao ler o mesmo texto possuam o mesmo grau de conhecimento acerca todos os aspectos da obra, como dito por Kelsen
De todo modo, tem de aceitar-se como possível investigá-la a partir de outras fontes que não a expressão verbal da própria norma, na medida em que possa presumir-se que esta não corresponde a vontade de quem estabeleceu a norma “
Sempre poderá se focar numa análise do texto com um novo ângulo investigativo, e através de novas ferramentas lingüísticas, pode querer se focar no aspecto do estilo literário ou do enfoque histórico É sempre passível de novas interpretações que se encontrem dentro da moldura, as décimas são as molduras, e os enfoques são as várias possibilidades de aplicação. O leitor é livre para apreciar a obra como bem entender, contanto que possua o mínimo embasamento teórico para localizar uma idéia geral da intenção do autor.
A necessidade de achar uma chave de interpretação da norma, na figura de um órgão operador do direito autenticando uma interpretação, é necessária, pois o positivismo jurídico depende do pressuposto da segurança jurídica.
            Para a aplicabilidade da sistemática jurídica, deve-se sempre ter em mente que o objetivo máximo dos métodos interpretativos, é reduzir o número de possibilidades interpretativas para um número prático e viável, para criar um sentimento de proteção.
            A crítica a Kelsen baseia-se na sua incapacidade de encontrar métodos dogmáticos de interpretação, e relegando a atividade interpretativa ao mero poder “tirânico” do operador do Direito.    
            “A Teoria Pura do Direito trata o Direito como um sistema de normas válidas criadas por atos de seres humanos. É uma abordagem jurídica do problema do Direito.” - Hans Kelsen.
            Ora, a crítica pós-positivista entende que para o direito ser válido, deve ter o povo como titular do poder do estado (um dos fundamentos do estado constitucional), o bem estar social deve estar sempre em primeiro plano, não apenas a autoridade normativa, pois as autoridades, não são nada mais que representantes da soberania do povo, como colocado por Paulo Bonavides.
            Imaginemos agora, que dom Alonso, o dom Quixote, tivesse sido nomeado Governador de uma Ilha, e através de seus conhecimentos dos antigos códigos da cavalaria andante, resolvesse implementar uma nova idade média na sua ilha em pleno território espanhol do século 17; através de decretos que estabelecessem normas de comportamento, de etiqueta e mesmo de fala antiquados. Agiria o nosso fidalgo de forma mais incongruente do que já agia no seu livro, pois, a realidade social de sua época não admitiria tamanhas ambições de ideais heróicos ou cruzados da vida da cavalaria. Ele estaria usando de uma chave interpretativa imprópria para criar normas jurídicas. Seriam as chamadas normas constitucionais inconstitucionais.
            É por essas e outras razões que se faz necessário o uso das novas técnicas interpretativas na atividade hermenêutica, todas elas em conjunto, a análise gramatical,a análise lógica, a análise sistemática, a análise histórica e a teleológica.
É preciso fugir do autoritarismo normativo Kelseniano. A interpretação autêntica existe, mas, como bem disse Michael Miaille – É necessário adequar o direito à realidade social, às ideologias, aos conceitos de justiça e aos processos institucionais e normativos. Não se pode mais concordar que exista Direito legítimo sem o pressuposto de resolução de conflitos e de busca pelo bem estar social.
Seria igualmente precipitado descartar o mérito da Teoria Pura para com a criação do positivismo Jurídico e suas profundas influencias na criação do Direito moderno, o mais justo, no sentido de apreciação de mérito, é que ao ler-se sobre a Teoria Pura e seus métodos de interpretação, haja espaço para apreciação do momento histórico e da finalidade do autor, afinal, até a teoria de Kelsen não possui uma única interpretação verdadeira. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A abertura do "Ser"


Alongou-se e olhou em volta; estava sozinha no quarto. Daí, como quem nunca quis outra coisa, senão tudo completamente diferente - ainda que se tudo mudasse apenas um pouco ou mesmo não se alterasse em nada continuaria tudo bem -, partiu a alongar-se novamente e olhou em volta. Surgiu, então, uma grande diferença: lembrou-se dos tempos em que tudo fora tão igual... Levantou os braços, grunhiu bem alto - lábios protuberantes - e correu, toda a balanço. Já não mais sabia a causa de sua correria, o motivo de seu grunhido e balanço... Sentou-se confusa e, alongando-se, olhou ao redor: estava tudo amplamente diferente. Dessa forma, como tudo estava igual (e ela não conseguira perceber), condiciou sua enorme mão-do-pé a pegar uma pedra enquanto com a mão-da-mão coçava seu traseiro protuberante - de fêmea. Olhou pela grade; viu uma placa (e achava que já a tinha visto antes, embora fosse difícil dizer com certeza, pois não conseguia ler ou identificar o que estava ali escrito) e prestou-lhe atenção. Neste exato momento, aproximou-se um menino, com seus bons doze anos, e leu: "Colchete, a Chimpanzé"; olhou aquele animal nos olhos e disse em voz alta: "Que animal nojento!". Colchete, por sua vez, vendo o menino, animou-se e, alongando-se, grunhiu e pulou!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Potentia & potestas

Stuart Sutcliffe & Astrid Kirchherr

E aquele abraço, aquele caloroso abraço - cuja frieza jamais permitiu -, fora como um troféu nunca alcançado. E todos os dias, M., na cama, desliza para os seus próprios braços, em um movimento peristáltico entre sua boca e suas pernas. Ah!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Jouer à "un, deux, trois, ..."


No sinal parara o ônibus. P., durante todo o caminho, sentara-se no meio do automóvel - para ser sincero, nem tanto assim; um pouco mais para frente, uma cadeira atrás da área reservada aos deficientes -, e, em um só instante, já estava em pé - mochila às costas -, segurando com ambas as mãos a metálico-cilíndrica estrutura de apoio. P. olhara para fora - e de um lado ao outro -, porquanto ainda acesa a rúbea sinaleta de trânsito. O escarlate em luz rebatia suavemente em seus óculos - na lente esquerda -, e isto fazia-o prestar-lhe atenção - muito embora não lhe consumisse energias ou trabalhos mentais exaustivos (como bem poderia), de forma a não recalcar de sua existência, nem sequer tolher seu olhar. Neste ínterim, já havia desviado sua mecânica testa-abre-mundo para um ponto remotamente escolhido à posição das duas horas - e por isso vira rapidamente duas figuras sem expressão, como que saídas diretamente das veias do chão, caminhando juntas - aos galopes. Como não lhes detivera o olhar, reparou apenas nos cabelos (escuros e soltos), na suave maquiagem e nas roupas (uma vestia preto e a outra branco). Mas isto só fora possível devido a sua escancarada falta de atenção, o que não tira nem afirma o quão desinteressantes eras as duas moças - se bem que P. as achasse. Não sendo suficiente, e já buscando outro alvo para o seu rotativo mental, P. observara que o senhor - gordo, careca e calmamente ansioso (todavia fosse impossível provar e dizer com certeza) - as seguiu com o girar-de-cabeça típico daqueles que observam. Não é possível, decerto, que lhes tenha achado gosto, pensara P., contudo fosse justamente o caso. Chegara à sua parada.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Psicografia: elogio à Trasímaco


Toda beleza encontra-se - por natureza e a priori - no espírito torpe. Isto quer dizer, no agir torto e injustamente (ver-se-á adiante qual o sentido de justiça e injustiça). Tal é verdade a partir do fato de que os resultados proveitosos advém, necessariamente, de um agir contrário à moral - e deve-se tomar por certo que esta [moral] é uma forma de diminuição da potência individual [do humano particular]. Este devir [potência] deve ser seta, no sentido antiquíssimo e moderno, ora como flecha atirada ao alvo ora como o próprio lugar do reconhecimento sensível de um local (ou mesmo alguma coisa) desejada.

Acontece que a justiça só existe, atualmente, quando se interpreta a igualdade e a retribuição. Sendo que ambos estes princípios servem para demonstrar um mesmo lado sob dois modos: um negativo-positivo - que caberia ao último [retribuição] isoladamente - e um positivo-negativo que acompanha o primeiro [igualdade] em todos os momentos da existência de sua pressuposição. Pois bem, a retribuição nem sempre é negativa, tendo em vista o encerramento em si própria de um princípio de vingança e desconfiança que deve ser explorado até as últimas conseqüências; a igualdade, por sua vez, é completamente detestável como finalidade, pois, partindo das diferenças concretas e efetivas, chegar-se-á em um momento de identidade por descaracterização do fato sensível - isto significa dizer: passar-se-á a desconsiderar uma desigualdade potencializadora em detrimento de um padrão mediano.

Encarar a justiça como aquilo que (a) se deve retribuir [princípio da retribuição] em (b) iguais partes aos iguais [princípio da igualdade] só é problema quando os iguais estão no mesmo patamar do governante; isto é dizer, só não é problema quando se considerar iguais todos os que desiguais ao mais forte, cuja condição se-lhe excetua da medianidade (por causa de sua excelência, poder e domínio). Por outro lado, e dando azo a este argumento, é extremamente inoperante e destrutivo salvaguardar a igualdade indistintamente, pois assim seria impossível manter a justiça ou injustiça [qualquer potência de um ato], mas apenas a medianidade; pois, se se assume que a justiça é igualdade e retribuição chega-se ao paradigma tradicional de que o justo é ou (a) o meio termo ou (b) suum cuique, contudo isto é inadimissível, pois o que se considerou na história do pensamento virtude nada mais é que vício. Entretanto, saliente-se, tudo o que vício e ignorância para esta inexpressiva, delével e deletéria "tradição", relegado à estirpe de baixo calão, é o que mais próprio de ser justo, visto que é o que maior felicidade individual se atribui ao mais forte - e mesmo aos seus súditos, pois restarão inocentes e irresponsáveis pelas decisões de "Estado".

E bem poder-se-ia parar por aqui, pois não há necessidade de explicação do que óbvio, principalmente quando se impõe por/pela força. Contudo, apenas para justificar a imagem do eu lírico, afirma-se: jamais existiu uma tal justiça que encare o agir justo nesta medianidade - porquanto a isto dar-se-á o nome usurpação de potência -, à exceção, é claro, da norma. Mas esta, em sua natureza, não é tal que permita à realidade uma alteração substancial de sua efetividade, o que se faz deduzir, por fim, a justiça como o seu contrário, a dizer, como injustiça - justiça é injustiça.

Ass. Trasímaco.

domingo, 16 de outubro de 2011

Hubris ou (Megalo)manias Mesopotâmicas




No palácio em Uruk, repleto de pompa e cerimônia; a cada sorriso do grande líder, miríades infantes copiosamente lacrimejavam . À cada cingir de suas sobrancelhas, seus súditos dançavam em perfeita harmonia coreografada - numa explosão de cores e ritmos na esplanada central, por baixo dos arcos comemorativos de seus mais fabulosos triunfos.

Como líder; filho dos deuses e pai de seu povo -  não poderia ser descuidado com sua vida e sua imagem. Todas as árvores nos seus domínios o pertenciam, e escalar uma delas era um atentado contra a sua honra.

Seu dever maior era proteger o povo de si mesmo, e dos tiranos dos potentados vizinhos. Afinal, a população, suas crianças : Não possuem o esclarecimento e a racionalidade que ele obteve de Ishtar, ou de Enlil. Estes eram fardos seus; cuidar para que seus amados súditos não caíssem nas mentiras e nos vícios morais. 

Ao subir no poder, o Grande Imã havia predito – “Superará todos os outros príncipes! “Aquilo o agradara muito, e como era do seu feitio, resolveu colaborar com a profecia.

Em prol de todos os seus filhos, o povo : Ordenou o assassinato dos líderes dos estados limítrofes, massacrou as tribos que seguiam outros deuses, e mandou construir em cada vilarejo um monumento em sua honra. Só para que não houvesse dúvidas acerca de suas legitimidade e ascendência.

Até que um dia, o império de infiéis o enviou um plenipotenciário, com um protesto formal sobre; o suposto massacre de mercadores, nômades em peregrinação, o confisco de galeras e barcos de juncos que navegavam por seus mares territoriais.

O benevolente Basileu, soberano, filho de Aruru, e Ishtar, possuía deveres mais urgentes, condizentes com a sua posição junto ao patamar dos deuses que habitam as profundezas. 

Mandou consultar seus sacerdotes, mercadores, generais e ministros do conselho de estado, que eram todos de seu sangue. 

Estes o deram o parecer de que, o emissário mentira-  e que cada vez que uma palavra escapava da barreira dos dentes, proferia um crime contra todas as gentes e deuses, e contra a divindade do Grande Líder!

Deixou a decisão mundana nas mãos deles, que cortaram o nariz e as orelhas do facínora, e o enviaram de volta num barril de esterco.

Na primavera do ano seguinte, enquanto observava a dança costumeira das virgens, das quais poderia exigir o direito de senhorio,  recebeu um tablete de um de seus sátrapas relatando a movimentação de tropas inimigas. Uma incontável coalizão de nações.

Consultou novamente o sumo sacerdote e o general dos exércitos, seu tio e seu primogênito, respectivamente, que novamente o garantiram augúrios vitoriosos, e a aparição de Namtar, o deus da perdição, na direção da invasão.

Com todas as hecatombes devidamente celebradas, abençoou suas brigadas que partiriam para a glória, e voltou-se às suas preocupações mais urgentes, a escrever sua história para a posteridade, e das revelações que recebia dos céus.

Morreu um mártir para o seu povo, que certamente o lamentará por toda a eternidade.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mnemosine - O Folhetim 07


"Mãe!", havia eu gritado. Eu, Laércio em todo o meu Conatus... E eu dizia: "quero ser bom, quero ser jovem, quero ser magro, gordo e forte!", mas nada muda; e mostrava aos meus heróis a fita no meu quarto. E repetia; girava, girava, girava em mim e para fora. Rodava e era bom! E eu acalmava-me, então, e parava e sentava e sentia e sorria e chorava e parava e rodava e era bom... § E nada muda e o meu Conatus... e os sortilégios, gritavam e clamavam, mas nada, nada mudava. E aquela palavra: "Mãe!" ecoava e eu rodava... E era bom. Algo era belo! Isto era belo? Já não sei mais... E desabafo: "queria poder dizer, que, se eu sou feliz, 'eu sou triste'; e que, se eu sou triste, 'sou feliz'..." mas nada, nada muda. Agora, eis aqui, engasgado; Laércio engarrafado! Tamanho hederáceo! Laércio, filho de Barnabás, gritava à Terpsícore: "Mãe!" Mas sempre longe o eco e sempre curto o fôlego, chegava lá apenas um beijo, na testa, no cabelo, de lado e sem dar. § E fechado em seu mundo, de máscaras e jogos e palavras aos ouvidos atentos: pois que enquanto fingia sentar - à cadeira, à mesa - para estudar, sorria e corria em si; e deixava, deixava-se rolar e girar e rodar e pular, mas sem mover-se, sem sair do lugar... E sentava ao chão, ao lado de seu tão conhecido tapete vermelho e azul, desbotado pelo tempo e maus tratos de menino e seu peão. À sua frente a televisão, muito baixa: ouvidos atentos! Prestava-lhe atenção, Sr.ª Porta, a ti que abre de repente e trás de fora novas pessoas - nem tão novas em sua memória - de hábitos! § Quando a Sr.ª Porta lhe prestava o serviço de ranger, pois o óleo já nem tão bom e nem tão velho - o que fazia-lhe ter de deixar tão baixo o volume enquanto brincava em seus pensamentos (e os olhos de um lado ao outro, e os dedos de cima para baixo, diziam: "estou pulando... sem estar!) -, chegava a hora de correr! Ligeiro e pés suaves: "vamos, vamos! à cadeira, à mesa! Já! Ninguém pode me ver..." Deve-se dizer que isto é belo? ... Talvez afirmar que há dois, isto sim! Dois Laércios: Conatus e Hederáceo! E tudo outra vez - gemini, embora pisces\

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Saginata: história do território interior



Há, agora, dentro de meu estômago um grande ponto branco. Este ponto branco é em mim um grande vazio. Ele me dá fome quando estou saciado, me dá sede quando já então me afogo e me corrompe a sempre sentir falta de algo que me alcança. Estou agora com um crescente ponto branco em meu estômago - e ele se move em mim. É grande e já não mais é um ponto; e vai e volta e enrola e solta. Passa e arranha em mim este traço e cresce e me toma. Serra em mim este fio e maquina-me por lacerar minhas vísceras. E sobe e alaga o meu pulmão; e força e me torna cancerígeno. Esfacela meu baço este traço e alinha-se ao emaranhado de minha massa. E sempre que vai mais acima escapa-me por entre os poros e revela-se-me em orifícios. Destrói-me e permite-me inconcluso; e... 

domingo, 2 de outubro de 2011

Tempus Fugit

Há através da ideia de progresso, no curso temporal dos movimentos,um certo contínuo sequencial que traz em si um clamor marcial de -Victori Spolia - Ao vencedor, os louros da vitóriaComo se tudo que vier em seguida, seja espontaneamente mais legítimo que o modelo anterior..

O que o ponteiro ultrapassa é devorado pelo abismo, e o novo passa a ser verdadeiro. O belo perde as cores, torna-se árido, é olvidado. Tons outrora ressonantes e melódicos tornam-se ruídos desarmônicos , cada vez mais longínquos, e ainda assim, irritantes.

Gilgamesh, aquele que viu as profundezas,não nos pode mais ensinar coisa alguma. Fora subjugado, seus feitos apagados dos tabletes; agora se defronta com o vazio. Dante não atravessa mais o Pórtico infernal. Agora o mastigado e digerido resumo vale mais que o deleite nas referências, é o deleite de deletar. Assim corre a história.



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Δαμοκλῆς, ou a fama do povo


Que pena! Aristóteles não conheceu a nossa sociedade: 
Neste governo à la Ayn Rand, quiçá constataria que estamos todos sempre corretos “Vivemos no melhor dos possíveis mundos” - Proferiu o mestre Pangloss. Fora daqui, Sólon! - Quem disse que necessitamos de suas reformas?



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

R.I.P.: o fim da máquina de escrever.

Para todos os que ainda se arriscam em imperfeições, pois fechou a Godrej & Boyce - a última fábrica de máquinas de escrever no mundo -, um texto em máquina de escrever...


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Direito: morte das diferenças em face de uma teoria dos sistemas


Se existe diferença no direito é única e exclusivamente para dois campos essencialmente diferentes: um voltado à pragmática jurídica (diferença funcional entre os diversos órgãos componentes do sistema jurídico) e outro voltado à axiologia (diferença de tratamento diante das diferenças percebidas na realidade, isto é, as diferenças reais; e diferença de tratamento em detrimento de prerrogativas ficcionais legais - a prerrogativa de foro, por exemplo). Assim é que todo o intento da hierarquização dos órgãos de julgamento é voltado à eliminação da diferença latente advinda das interpretações possíveis e da multiplicidade brotante. Sempre que um juiz decide por um caso A e não por B há uma limitação do campo de escolha para o futuro (sem falar na questão da retroação): significa dizer que não só ele não mais irá decidir para B, mas que outros juízes, ao tomarem conhecimento de suas razões, se as tomarem como corretas, não mais irão decidir para B; e, por fim, que B aos poucos vai se tornando tão reprovável juridicamente que se eleva negativamente no seio do social como ato reprovável, permitindo pensar, a depender de seu conteúdo, um recalque ou privação de um hedonismo dos resultados imediatos, ou seja, B passa a ser evitado pelas pessoas que em potência de atualizá-lo. É assim que a justiça se opera por uma força do hábito, ou da habituação, pois o que era justo outrora (tome-se como B) passa a ser desprezível em função de uma nova ordem (A). Isso vale para todo o direito: as diferenças são solapadas quando elevam o unívoco à multiplicidade, e isto ocorre por meio do trânsito em julgado nos tribunais superiores.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Arremedo ideológico

Arremedo / e / s.m. (a1633 cf. DA) ato ou efeito de arremedar; arremedação 1. cópia, reprodução, remedo 2.  imitação deficiente, cópia malfeita 3. p. ext. imitação burlesca e caricatural, buscando o ridículo através do exagero ou da deformação 4. situação, realidade ou pessoa de natureza falsa, inautêntica < aquilo é um a. de vida >. ETIM regr. de arremedar; ver imag. SIN/VAR remedo.

1) O que aqui é um arremedo?
1.1) O que é o aqui no arremedo?
1.2) Qual o lugar do arremedo no aqui?

2) Quando se identificar um arremedo?
2.1) Quando se tolerar um arremedo?
2.2) Quando rechaçar um arremedo?

3) Como solucionar o arremedo?
3.1) Aporias ou arremedos?
3.2) Soluções aporéticas do arremedo (vide imagens):




segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Autos conclusos ao juiz: serenata à burocracia.



B. fora convocado a prestar uma diligência. Ele sabe que seu salário não vale o desgaste, mas nada pode fazer contra as ordens de cima. Dessa forma, chega B. a uma encruzilhada: continuar com sua triste expressão de angústia no rosto ou reprimi-la para poder atuar no tribunal. Resolve pela segunda, pois sabe muito bem que no fim das contas o que garante seu mísero salário são os muitos, mas muito pouco importantes, resultados os quais vem alcançando a longo de sua carreira - ressalte-se, B. era um advogado. Assim, já completamente afastados os sentimentos que lhe eram iminentes, encontrara-se defronte do portal da "justiça", aonde deveria dirigir-se a uma determinada vara e prosseguir com suas técnicas de enfadonha oratória e lúdica paciência. Entrou de uma vez no fórum, seu terno muito bem tratado, seu colarinho engomado como nenhum outro, sua camisa devidamente ensacada e sem quaisquer sinais de desgaste, seus sapatos engraxados e polidos, seu relógio escondido ao bolso, donde só saltava uma corrente a qual se prendia à algibeira, lenço em dobra tripla no bolso do paletó e cabelos penteados para o lado, dividindo-se ao canto de 3/4.

B.: Bom dia, Senhor... Será que o Sr. pode me ajudar?
FUNCIONÁRIO: Me diga o número do processo.
B.: XXXXXXX-XX.XXXX.X.XX.XXXX.
                                                                   (O funcionário volta-se ao computador)
FUNCIONÁRIO: Ele está concluso ao juiz.
B.: Isso! Justamente... É por isso que eu vim aqui. Ele está concluso desde o ano passado e gostaria de saber o que pode ser feito.
FUNCIONÁRIO: Hum... Deixe-me chamar o chefe de secretaria.
                                                                                                   (retira-se do atendimento)
CHEFE DE SECRETARIA: pois não?
B.: Tudo bem, meu caro? Apenas gostaria de saber se este processo poderia ser encaminhado ao juiz como prioridade, pois já está concluso a mais de um ano e trata-se de algo tão simples...
CHEFE DE SECRETARIA: ele já se encontra no gabinete... Vou chamar o assessor.
                                                                                                                        (entra em uma porta à direita)
ASSESSOR: Tudo bem, Doutor?
B.: Tudo bem, obrigado. Pois é... Este processo está concluso desde o ano passado; tem alguma coisa que possa ser feita?
ASSESSOR: Doutor, é o seguinte, o Juiz entende que os processos que estão aqui desde o ano retrasado têm prioridade para análise, portanto, se o Dr. pode compreender, e para bem cumprir com a meta, é preciso que os processos esperem na fila.
B.: Mas, meu amigo, é algo tão simples, tão evidentemente simples...
ASSESSOR: Eu não duvido do que o Doutor diz, mas são as ordens do Juiz...
B.: O juiz está?
ASSESSOR: Ele está de férias.

domingo, 31 de julho de 2011

Paraíso em Paralaxe: estórias do Recife


Estava B. na rua da Soledade. Eram 14:37 de uma sexta-feira. Nesse momento, muito despretensiosamente, caminhava tranquilamente, relembrando como nunca fizera - talvez, justamente, porque pouco recordava - o seu caminho da Av. 17 de Agosto, na Zona Norte da cidade, até a sua paragem, na Av. Conde da Boa vista, no Centro. Ao contrário do que pensara, o percurso foi transcorrido mais rápido do que o normal, pois chegou ao seu destino em mais ou menos meia hora - algo, de fato, diferente dos habituais quarenta minutos. Lembrara-se de ter sentado no fundo do ônibus, na cadeira que dá para o corredor, o que também já não era muito habitual, tendo em vista gostava de ficar próximo à janela ou, mesmo, no corredor. Mas na verdade, não tinha preferência alguma, desde que pudesse sentar, o que já era completamente complicado, uma vez que aparentemente a frota é imprecisamente pequena e moribunda. B. sempre refletia sobre a natureza dos motoristas: se fazendeiros ou empregados, pois sempre achara que eles tinham certeza de levar gado e não gente consigo.

Durante parte do caminho, enquanto lutava contra seus impulsos dominicais, ou seja, o espectro do boceja-dorme, tentou ler a vários balouços de cabeça um pedaço de seu exemplar de em defesa da sociedade, de Michel Foucault. Isto vinha bem a calhar, pois, em volta de grande número de comuns, isto é, rodeado pela sociedade, pensava o que estaria aquele demagogo de seu prefeito fazendo enquanto ludibriava a todos os desafortunados. E, da mesma forma, imaginava as formas de produção do discurso utilizadas por um prefeito tão pouco simpático e caloroso. Mas, não foi possível para B. terminar de ler o que pretendia. Aparentemente o balanço costumeiro de sua cabeça, devido a todos os buracos provocados pelo tempo chuvoso aliado à falta de manutenção da pólis (ora, apenas mais um ato deste vândalo romano), não resistiu ao ímpeto dominical e cedeu ao rei da noite, seu colega de poucas horas, Morfeu, deus sonífero. Não conseguia lembrar de seus sonhos. É muito provável que tenha sido muito turbulenta a sua viagem, e, assim, não tenha sequer sonhado. Isto é muito plausível.

Neste momento, B. já passara da Igreja da Soledade e atravessara uma rua transversal, cujo nome jamais se indagou. estava na calçada direita da rua, mas olhava às vezes à esquerda, lugar em que via o movimento em volta de um fiteiro, ao mesmo tempo em que aguardava ansiosamente passar por uma construção, quiçá abandonada, que muito lhe interessava. Não fosse esse bendito prédio, já estaria na penúria como um bom avant-garde. Pois bem, lá estava ela, e se não suspeitasse tanto da violência, teria parado aos pés daquele prédio insignificante, abandonado, desbotado e malogrado apenas para observar as formas pelas quais um resto de natureza se espalhava através de suas paredes. Pois lá, no prédio, acima dele, por ele, havia uma árvore a crescer! Isto o maravilhava! Toda a exuberância de um resto no lixo que chamamos de lar. B. não passava de um nostálgico infeliz, mas, com toda a certeza, mais feliz por saber o que importa.

domingo, 24 de julho de 2011

B-Mashina



Este é o ano de 2011 e encaminha-se ao neo-totalitarismo. Não que já não se esteja nele, longe disto! Estamos ainda mais dentro dele. Apenas acontece de forma mais rápida e desmedida o seu encontro. Mas o que é o neo-totalitarismo? É algo que está fora dos padrões do ser político, algo que nem o próprio Estado Leviatã conseguiria dizer com facilidade, mas que é tanto mais real quanto factual seja. A sua raiz está profundamente fincada nos pés de uma mudança sensivelmente ideológica. Este é o ano de 2011 e há muito tempo encontram-se todos no neo-totalitarismo libertário. Cuidado em ambos os lados! Leste e Oeste fazem parte de um passado esquecido; o mesmo vale para algo mais remoto e tanto mais esquecido em sua essência: o Arianismo super-hominídeo. Esta é a linguagem do totalitarismo. Este é o código do rememoramento: o esquecimento cadenciado e visto à perspectiva das ondas em linhas de intersecção de memória. Deve-se esquecer para lembrar; mas não viver para superar. A experiência mostra justamente isto. Este é o método utilizado por todos os mecanismos multinacionais. E subitamente todo o povo na Terra foi pego por um vírus: alguns disseram que isto era devido à água... Quanta besteira. O problema nunca esteve na água. A água é que esteve no problema: a água, a comida, a vida, a economia. Para proteger a todos de suas memórias sobre si e sobre tudo o mais, crie-se os mecanismos de esquecimento-rememorado. É basicamente uma forma mítico-ritualística de dizer: “então, e finalmente, a sós! Eu, eu e eu mesmo. Mas não tão só... Tem o mercado para me ajudar a superar toda esta crise”. E não é que seja necessário viver lembrado, mas não viver sem não ser vivendo; e para isto ocorrer é necessário não deixar de morrer todos os dias sobre o que se foi e passar a ser outro que não o de sempre, pois o ser, e Parmênides e todos os demais sempre estiveram errados, não passa de uma mortificação, uma estagnação, um contraponto ao santo e ao corporal! Pois o santo é o corpo, não o sangue ou a alma. E nesta linha que já parece estar quase perdida em devaneios, uma salvação: sim, são devaneios; não, não são mais do que não devaneios. Contradição? Jamais! Veja-se o seguinte, e para começo de conversa, pois este ainda é o começo, não há paragrafação neste texto e isto quer dizer alguma coisa. Tem um significado significante por trás disto, mas este não pode ser revelado. Isto, quer dizer, este texto, funciona como uma mensagem subliminar, mas não se dirá aqui qual vestígio sobrará no profundo emaranhado sistemático-nervoso. Este é o senso de todo este neo-totalitarismo – não sempre foi ele a questão central deste diálogo mono-circunstancial? Simplifique-se: a libertação é a maior forma de totalitarismo, de controle da produção, de produção de uma paz, de uma passividade, sem conhecimentos de causa, pois não importa nada exceto o controle. Os atuais políticos leram um maquiavelismo perigoso à própria base do texto do Florentino; e ele treme-se no leito de vida. Leito de vida? Dat is zeer moi, hè?! E como é bonito pensar que do morto há vida, enquanto não seja post mortem, pois, queridos, a vida é maior na morte, pois já não é vida contida, mas vazio e expansão! Expansão e vida de corrupção à geração: outras formas de vida na vida que é tão só aqui e agora! E assim como era no final agora e sempre! Mas, pois bem, esta corja política utiliza-se do 1984 para fazer de todos os demais os seus larápios de dominação sem causa. E este não é mais um texto político! NÃO!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Wirtschaft ist Tot!


Faz muito tempo que tenho tentado colocar isto aqui, mas ainda não me acho suficientemente capacitado para explicar o por quê subversivo de fazê-lo, já que eu sou o único propriamente classificado para interiorizar isso em mim mesmo por modos e mecanismos subversivos de repetição dos elementos mitridatizados. Interessante pensar que este foi um dos motivos essenciais e primordiais da criação deste  lugar profano e deteriorado. O meu material foi sempre baseado e continuará sendo baseado na tentativa constante de, se não a mim, a vós, a nós, acostumar, ainda que ninguém, alguém aos venenos. Aos venenos, eu disse, sempre aos venenos. Minhas categorias são pouco próprias e pouco duradouras diante de um sistema-extinção/sistema-criação/sistema-eternidade, mas posso repeti-lo(s) sempre que devido; incorporá-los, usá-los, mal-utilizá-los, abusá-los, deteriorá-los.

Throughout Mario Bros® games it's easy to find out a lot of tubes, pipes and turtles' shells. This is the spirit of the game: a selected repetition of the repetitive selection of the repetition of the game itself. This is properly subversive. This is the way energy seems to flow out of the stardard into something else. Mario starts the game and he goes and goes all over into the endenessless empty spaces of the core. And these aspects of subvertion makes what is really beautiful in having found out subversive shelters into subversive jumps out of the Toad-Peach situation.

Ao longo dos jogos de Mario Bros®, é fácil encontrar vários tubos, canos e cascos de tartarugas. Esse é o espírito do jogo: uma repetição selecionada da seleção repetitiva da repetição do jogo em si. Isso é propriamente subversivo. Esse é o modo pelo qual a energia parece fluir do normal a algo mais. Mario começa o jogo e ele vai e vai todo derredor até os infindáveis espaços vazios do centro. E esses aspectos da subversão fazem o que é realmente bonito em ter achado cascos subversivos em pulos subversivos para fora da situação Toad-Peach.

É assim que ocorre na música e na arte do grupo Esloveno da cidade de Liubliana, Laibach. Segundo seu conterrâneo, o filósofo Slavoj Žižek, "This is what is really subversive". E, muito embora todo o texto acima seja meu, toda a idéia seja minha, toda a construção seja minha, nada é meu... Tudo me perpassa e neste percusso, o fluxo de minhas sensações já não são mais nada. Nada também é o que se propõe Laibach; nada de inovadoramente inovador: isto significa dizer que, se por um lado há algo de extremamente inovador em seu conceito de fazer música e arte, por outro, e de uma forma muito mais profunda, existe algo, algo íntimo, algo intimamente ligado à forma de exercício do poder soberano nos estados, não importando se de primeiro, segundo, terceiro mundo, ou mesmo se, Leviatãs, redes imperiais ou mercados audiovisuais em expansão biosônica. O exercício do exército é a marcha: deve-se marchar, no caminho da subversão, sempre ao maior encontro subvertido daquilo que se subverte, nunca se afastando do objeto em questão, aproximando-se, tal qual esta marcha e este som de botas ao chão: Rechts, Links, Rechts, Links, Rechts, Links, Rechts, Links, Rechts, Links... preparem o muro, atirem-no ao chão: com isto, meus amigos, já disse Pink Floyd (não é verdade, Roger?), vai embora toda a proteção! Vivo o veneno vivo em mim, na medida em que sou veneno daquilo que subverto e ao passo que subverto aquilo que pretenderia a priori.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Rugido: calado e contido...


Dizer que existe um modelo do feminino e do masculino é cair na armadilha de uma construção. Homem só é como ocorre biologicamente; isto vale para a mulher. Dessa forma, antes de homem e mulher como seres psicológicos, masculino e feminino como características biológicas. Eu assumo isto, apesar de também assumir o risco de aceitar a convenção: o próprio do homem e da mulher (como seres psicologicamente diferenciados), pois há uma necessidade fática de aceitar/encarar a história, a construção histórica. Isso porque, embora diga poder existir homem(s) tão mais feminino(s) do que possa ser uma mulher e vice-versa, é necessário, ainda, afirmar que ambos resistem enquanto institutos tradicionais; tradicionalmente passados e repassados enquanto convencimento do discurso.

Pois bem, o homem, como formação convencional de um discurso e, assim, como móvel pré-moldado, só pode ser isto e aquilo; necessariamente. O que é isto e/ou aquilo? Tudo o que assoma a idéia arbitrariamente estabelecida dele, sobre ele, dele sobre ele. Assim, é mais prático - se não tenho o interesse de imaginar (embora já o esteja fazendo) aqui sentados todos os leitores desesperados, ansiosos por um fim cujo fim jamais chega - dizê-lo naquilo que não é. Mais especificamente, em algo determinado pelo título deste pequeno ensaio: não é sentimental. Claro, não que não possa ser (pois disso denota que há a mesma possibilidade para sê-lo encontrada nas mulheres), mas simplesmente não o é, salvo alguns casos de segmentação social em detrimento de tendências, pois permanece subjugado ao estereótipo.

A tradição ocidental foi, então, extremamente desmedida em relação ao homem: sobressaltou alguns valores que não são necessariamente os melhores (ou sequer são bons) e relegou à mulher o papel de grandessíssima ovelha pastoreada, dizendo negativos todos os valores que faziam-se prementes nela (na sua convenção). Assim, é a mulher igualmente um ser desmedidamente construído. A isto chamou-se natureza, e disse: eis o homem; e de sua imperfeita parte uma ainda pior, a mulher. Algo, entretanto, parece estar errado nesta interação. Ficou, então, estabelecido o quadro: homem, apesar de não ser perfeito, mais próximo ao divino. mulher... já nem tanto.

O fruto da Árvore Proibida está aí para isso: a mulher deve ser frágil; o homem, no máximo, fragilizado. Pandora aparece, no mito de Prometeu, como esta eterna lembrança: por quem é o homem fragilizado senão pela mulher? E, enquanto a mulher traz a intuição, o feeling, o ser do homem é a razão. E pela razão nada mais haveria que não ela própria e suas derivadas. Assim: razão, sabedoria e contenção: a humana tripartite perfeição no/do homem exemplar. E existe algo de extremamente equivocado nessa relação (homem-razão), ela aparece como um traço da personalidade esquizoide.

Aqui, resta o homem simplesmente imperfeito (incompleto) diante de sua imperfeição, pois esquece, a bom gosto da tradição, o seu mais instintivo instinto: o sentir, pulsar. Fica, por conseguinte, calado: contido. Guarda e resguarda-se, recalca e retira-se. Ruge em casa, sozinho, e gralha ao mundo em coloridas penas de desespero - pavão entorpecente. Em busca de ataraxia e temperança, um só sinal: falta de si, de rosto, de outro. No palco do tragicômico, a máscara da fluidez.




terça-feira, 12 de julho de 2011

Recife's Business School!


Pois bem, não sei se foi por conta de um ódio que me diminuia ou do simples e profano desejo de briga e de confusão que com esforço tentava controlar - muito embora penso ter sido tão só o acaso - fui assaltado enquanto parado e disperso. Na verdade, nem tão disperso estava, apesar de que isto não fez como não faz qualquer ínfima diferença. O chão é sempre o chão: e demora para dele se sair. Não havia jeito, senão o próprio assalto e a resiliência.

Entra, então um estranho no carro; um estranho em um carro estranho. Daí ao ponto de ser o carro (outrora tão meu, tão eu) um estranho, também, já não foi tanta surpresa. Eu e o carro quando éramos um só, íntimos; depois, éramos vários, descentrados e desconhecidos. Surpreendemo-me, entretanto, não ter-me desobedecido como faz um cavalo confuso ou em fúria. Aliás, muito pelo contrário! Serviu-me tanto melhor. E quanto melhor nos servem os estranhos...

Com toda certeza, após o incidente, este deve ou pode ter sido o pensamento dos colegas ladrões. Pois os seus só servem a si quando é fácil, quando não têm medo; quando, em suma, lhes é conveniente. Claro, que pode ou deve ser conveniente servir enquanto isto for alimento ao ego e ao hábito, ainda que não seja tão fácil, que lhe cause medo ou não seja conveniente a priori. Ego e hábito, formas de justificar o servir alguém próximo.

Assim, rodamos e não foi pouco; quase um belo passeio, um city tour. Fomos do Espinheiro até Casa Amarela; dali para Apipucos e quase chegamos em Dois Irmãos. Depois, fizemos, ou melhor, desfizemos o percurso corrido. Destino? Santo Amaro. Um belo lugar para nos soltar, pois é central, não é mesmo? Claro, belo lugar uma ova! Estávamos sendo assaltados, mais precisamente, em linguagem técnico-jurídica, sofríamos "extorsão mediente sequestro".

Mas verdade seja dita, de certa forma, a situação foi até suavizada; atrevo-me, parcialmente controlada por nosso autocontrole - meu e de minha mulher. E mais, foi mais controlada pelo sentimento de controle que nos deixamos impressionar, incutir pela paixão - como quem sofre. Quanto aos dois meliantes? Acalmaram-se, enfim. Sabiam que estava na reta; não na nossa, óbvio... A grana estava.

Assim foi... Paramos, sacamos; sacaram e gostaram. Partimos e obedecemos. Fazíamos ali quatro anos juntos - e, deveras, talvez nunca tenhamos sido tão cúmplices! Ali já não era mais Eu e Ela, éramos Nós, juntos e indissociavelmente perplexados e mortificados e aquebrantados e apaixonados. Parabéns e obrigado, minha linda! Um conto a mais para nossos filhos e netos e por ai a fora!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Bülow: entre o sonho e a epifania


O quarto estava quase todo tomado pela escuridão, não fossem os vários pontos azuis e vermelhos dos aparelhos em standby. Bülow estava deitado em sua pequena porém confortável cama, dormindo em sono profundo e tudo estava calmo. No quarto apenas os sons indistintos do ar-condicionado e do cair de água do filtro de seu aquário. Dormia, não obstante, inquieto e mexia-se bastante – tanto é que o lençol que a princípio lhe cobria até aos ombros estava agora em sua cintura, e seu pé esquerdo aparecia já para fora da cama.

Em seu sonho intranqüilo deixava-se perseguir por uma vontade que, muito embora se diga apenas uma realidade passageira, crescia e expandia-se em sua mente sã, nos dias que se foram. Já não era a primeira vez que sonhava aquela estória, e não seria a última, talvez. Queria, contudo, que este sonho, assim como seus desejos fossem todos embora para nunca mais... nunca mais o perturbarem, pois eram torpes e violentos. Mas, como que sendo seu desejo secundário, e sendo sua vontade, aquela à maneira de Sartre, mais reta e clara, fez sua escolha inconscientemente.

Em seu sonho repetiam-se sempre as mesma passagens, as mesmas pessoas, as mesmas figuras; e ficava sempre e apenas a idéia de que dever-se-ia dar ouvidos aos velhos deuses – os de outrora; os deuses dos arvoredos, das sombras, dos cantos e dos ventos. Aqueles que o agora e o depois tentavam esquecer e os que sempre seriam sempre mais e mais como a morte de todos os descrentes. Pois se os valores foram transmudados, seriam, porventura, tresvalorados e passariam, no devir, a ser o porvir do passado.


 Andrei andava descalço sobre a grama, era macia e suave, sua pele tocava-a sempre de forma muito tranqüila e excelente. A sua frente, ao levantar a cabeça, todo o mundo se desdobrava e percebia aos poucos que tudo aquilo era seu, era seu eu. Letícia, que Andrei já avistara a muito, vinha correndo contra o vento e seus cabelos balançavam sempre cobrindo-lhe um pouco o rosto; seu vestido branco levantava sensivelmente, mas sua mão cobria-lhe certa altura de sua perna e assim tudo permanecia.
Andrei a observava vir a seu encontro. Era esperado que chegasse ofegante. Chegou, enfim, mas não aparentava o seu esforço e olhava-o de uma forma estranha. Ele se referia a ela como uma pessoa já distante, e suas pernas passavam a fazer parte da grama em que pisava. Seu rosto, a alguns minutos tão lívido, agora encontrava-se retorcido e agonizante. Ela mantinha a calma, entretanto. Sabia que ela deveria estar apenas se apressando a chamar-lhe à ceia, pois já era tarde.
Todo o seu corpo mudava e nada do que fora era agora. De seus braços pó, de sua pele, escamas. Suas pernas, que faziam parte do terreno, já não eram suas e seu corpo era um só seguimento firme e tubular. Ele a seguia no caminho de volta a casa, mas o horizonte, tão largo, estreitava-se e encurtava-se. Transformando-se, então, numa simples reta de corredor ladrilhado. Lá a cobra andava e ele a seguia.
Andrei olhava o corpo rastejante de Letícia e ouvia passos ao fundo. Ele sabia que algo estava mais certo naquele momento do que no princípio; isto o acalmava. Os sons aproximavam-se de seus ouvidos, embora nada pudesse ver ou ouvir propriamente. Sons indistintos rachavam-lhe os ouvidos, mas nada surgia. Letícia seguia a frente; no corredor vários quadros, dentre eles um de Bülow, seu amigo.
Tudo começara a alargar novamente; e como que chegando a uma antecâmara guardada pelo tempo. Bülow passa e o cumprimenta – segue, contudo no sentido contrário. Andrei para, Letícia volta a sua forma original, não obstante seus olhos fossem trevas e seus pés fossem um só com o solo. Várias formas vão surgindo do chão derredor. Falavam no idioma dos antigos e moviam-se como eles. Andrei sabia o que viria, mas não ousava dizer.
Uma das figuras incorporou Letícia, e esta passou a ser uma só com aquela. Bülow era a figura, Letícia sua alegria. Bülow fala para si e para Andrei:
-Senhor, chegastes até aqui e sabes quem eu sou. Sabes que antes eu era e agora eu sou tu. Te olhas e me vês. Te tocas e tocas a mim. Sabes, porém que eu sou terra e trevas e nada. Sabes também que o meu princípio é a paz da guerra e o sangue e que jamais escaparás a isso. Percebes em teu ser que nada do que falo é mentira e muito menos verdade. Pois nada é... nada é jamais, foi e será sempre. Os antigos deuses, esses que eu-tu somos, são apenas representações de teu si mesmo, tu bem sabes disso. Letícia é tua alegria em ver as trevas de ti em mim e sabes que é assim.


Acordara Bülow sempre neste momento, sem entender até que ponto era ele quem falava ou simplesmente ouvia. Nesse dia, porém, ele fora até a biblioteca e entre eruditos e mitos e sombras, o silêncio sempre imperioso. Procurara um livro sobre os antigos ensinamentos e encontrara aquele da grande capa vermelha, com letras em grande gótico preto. Abrira-o, não o lera. Voltou para casa e refletiu até que caíra num sono profundo e sonhara tudo outra vez. Acordara no mesmo ponto, mas dessa vez com uma certeza, a guerra e a violência eram um com ele e princípio geral: matava para comer, comia para viver e matar novamente, até o dia em que morreria para ser comido ou seria comido por si ao morrer. E ao tombar seria um só com a terra e os velhos anciãos, deuses da natureza, pagãos.